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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Ano que vem é futebol

Minhas crônicas de quinta.

Ano que vem é ano de futebol… e de eleição presidencial. Os últimos anos têm nos mostrado, de forma singular, que erramos feio no calendário.

Embarcaremos todos em uma síncrona emoção, de nível nacional, narrada pelo Galvão. “Brasil-sil-sil-sil!” Terá patriotismo de cá e muito oportunismo de lá. Pode acontecer um 7 a 1 de novo, ou o contrário… depende de como estará nosso “complexo de vira-latas”, já expresso por Nelson Rodrigues.

As lojinhas do camelô e as da Avenida Brasil (ou qualquer outra, dessas, que caem na rodoviária) terão camisas amarelas, a 10 ou 15 reais, balançando no varal como se fossem bandeiras. Outras lojas, do calçadão, e as do shopping, terão camisas parecidas, a um preço bem mais salgado, vestindo seus manequins.

Nas camisas hasteadas na Avenida, consigo ver um tom de ingenuidade. Posso enxergar uma fé genuína pela Seleção, representante da pátria amada na busca pelo Hexa. Vejo beleza no amor pela camisa. Há algo de belo no orgulho de ser brasileiro e na fé em vencer a batalha mundial. Há uma longa e importante história de esperança, emoção e união do povo em torno de um bem comum, que se repete a cada 4 anos.

Nas camisas caras dos manequins – nada contra elas e seus fabricantes – mas, no geral, já não vejo tanta ingenuidade. Pode até ser um olhar preconceituoso da minha parte, mas a julgar por onde elas andaram nos últimos anos, me trazem um pouco de vergonha. Afinal, “a crise também é estética”, é o que o cartunista André Dahmer já tuitava sobre o pato amarelo em 2016 e que os críticos da estética política amarela com toques de verde, retratada especialmente pelas classes média e alta brasileiras, seguem dizendo.

Ano que vem é ano de futebol… e de eleição presidencial. Devia ser considerado crime eleitoral se apossar de símbolos como a camisa da Seleção – ainda mais em ano de Copa – para levantar bandeira política. Devia ser considerado crime contra a humanidade – abro licença poética para fazer piadinha com essa lástima – se aproveitar do que há de mais humano em qualquer um de nós: fé, emoção e simbolismo, para conseguir o que quer. Ainda dizem que política e futebol não se discutem. Mas quando a política vira um futebol a discussão fica ainda mais interessante. Aguardemos o ano que vem.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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