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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Dois mendigos

Minhas crônicas de quinta.

Há quase dois anos, num domingo de pleno sol (o real Sunday), era fim do feriadão prolongado da Independência. Eu e uns amigos – o meu velho grupo da faculdade – aproveitamos essa data para nos encontrarmos e matarmos um pouco da saudade. O encontro foi no interior de São Paulo, em Rio Preto, numa chácara: piscina, bons drinks e comidinhas. Foi tudo muito lindo, todos em plena harmonia, curtimos nossas presenças, alguns até o sábado, e outros, até o domingo a tarde, quando o encontrão chegara definitivamente ao fim.

See you laterrr! Bye, byeee! – brincávamos, para esconder a tristezinha da despedida.

Bye my friends!! I already miss you!

Oh my God, please! Don’t gooo away! Don’t go…!

E seguimos nessa brincadeira de falar inglês e dramatizar a inevitável despedida.

Eu e outra amiga, a Keila, quase vizinha de cidade, decidimos voltar juntas naquele domingo. Como nenhuma das duas dirigia (dois anos depois, ainda posso conjugar esse verbo no presente) o jeito seria pegar um busão. Um amigo nos deixou na rodoviária, nos despedimos novamente, e por lá ficamos à procura, e depois, à espera da próxima viagem que nos levaria de volta a Presidente Prudente. Até lá, tínhamos algumas horas sem muita alternativa de entretenimento. De início, até que eu estava conformada… já a Keila, exalava impaciência. Decidimos dar uma volta para relaxar e preencher aquelas horas vazias. Dobramos a rua da rodoviária e caímos numa praça, de onde ficava até mais fácil ver as plataformas de embarque.

Conversa vai, conversa vem, como arquitetas urbanistas meio sociólogas, analisadoras dos espaços públicos, começamos a falar algo a respeito da condição de mendicância. Como em quase toda rodoviária dessas terras, naqueles arredores haviam alguns moradores de rua, e esse foi o start da conversa. Em certo ponto desse diálogo, me lembrei de um filme – ou episódio – engraçado que assisti uma vez, o qual, se não me engano, era baseado em algum conto. Trata-se de um filme antigo, ainda em preto e branco, que se passa numa dessas cidades europeias. Lá, era inverno, e o protagonista da cena, um mendigo (característico). Abro parênteses para me desculpar com quem, eventualmente, se sentir incomodado com essa palavra (especialmente se você, leitor, for um deles). O certo seria usar o termo “morador de rua”, mas, para histórias como essa, “morador de rua” é técnico demais. É (conforme minha falha sintaxe) uma locução adjetiva carente de… adjetivos. O mendigo é um personagem pronto. Já sabemos como ele é. Em sua cabeça, leitor, provavelmente desenhe-se um homem com barba, descabelado, sujo, possivelmente alcoolizado, acompanhado de papelões, talvez um cachorro, talvez um colchão e um cobertor velho.

Fechando os parênteses, a trama do mendigo do filme, como eu dizia à minha amiga, era que ele fazia de tudo para ser preso. Inventava de roubar, incomodar os policiais e causar qualquer confusão para que o levassem à prisão. Lá, pelo menos ele teria um teto, paredes, banho, comida. Para ele, isso era vantagem. Não me lembro (até hoje) se os planos do mendigo deram certo, não lembro nem mesmo o nome do filme. E era justamente isso que a Keila procurava no celular, quando um deles se aproximou de nós.

Ele pediu dinheiro, e a gente negou. Depois, pediu um hot dog, e a gente não tinha e nem estávamos afim de procurar… Tudo o que tínhamos era um pacote de bolacha recheada, o qual abrimos e começamos a dividir com aquele homem.

Depois dessa pequena cerimônia inicial, o homem continuou a falar e demos abertura. Perguntamos um pouco sobre a sua vida, e, pela forma e as coisas que ele contava, parecia alguém estudado, inteligente e até viajado (não andarilho, viajado!). Veja bem: o “mendigo” é, por definição imagética, alguém desprovido, também, dessas coisas.

Minutos de papo, já que éramos quase brothers, tomei a liberdade em perguntar se o Antony (esse era o seu nome) conhecia o filme de um mendigo que queria ser preso… e toda aquela história. Não, ele não conhecia, mas se interessou pelo filme. Agora, já era questão de vida ou morte encontrar o dito cujo. Precisava mostrá-lo, também, ao Antony! Se não o filme, ao menos uma pista…

Foi por essas horas que, à beira da desistência, quase que por um milagre, a Keila finalmente encontrou o tal filme no youtube.

– Aaaaaaaaaaa! – eu fiquei feliz e comemorei!

Ficamos todos felizes. Na verdade, era só uma parte daquele filme, mas justo ela me interessava. Nem era tanta coisa assim, só aquilo que eu já falei, mas o gosto da vitória valeu mais que qualquer outra coisa.

Respeitados os nossos limites de interação, demos o play e começamos a assistir a cena junto com o Antony. Para nossa surpresa, o filme estava em inglês e sem legenda. De imediato, entendemos que não daria para continuar… Sendo assim, a Keila deu um pause e nos olhamos, os três, como quem dissesse: “E agora? Vamo assim mesmo?!”

Eu e Keila nos viraríamos. Não éramos fluentes, não fizemos aulas formais, mas entendíamos bem o inglês… a gente acaba aprendendo…! Um pouquinho aqui, outro pouco ali, quando vê, você consegue assistir um filme em inglês sem legenda. Mas o Antony… não sei…

– Oh my girls, I speak English! – esbravou o Antony, mais animado do que a gente!

Por essa não esperávamos. Ficamos boquiabertas! E logo, entramos na onda do nosso colega.

– Oh boy… Do you speak English? Bueno… Ops… – tropecei na língua.

Sério, ele respondeu:

– Yes… Actually I was born in Puerto Rico. There, we have two official languages: Spanish and English.

– Oh… Amazing! And… How you come in Brazil? – a Keila perguntou.

– How did I end up in Brazil? This is a long story… Do you want to hear it in English, Portuguese or Spanish?

– In English, please! – dissemos, humildemente.

– But, slowly… – acrescentei.

Como ele veio parar no Brasil e o nome do filme, eu fico te devendo, porque eu realmente não lembro! Caro leitor… Se você souber de qualquer coisa sobre um desses dois personagens mendigos… please! Não hesite em me contar. Lembre-se: um fala inglês e o outro queria ser preso.

Luana Carvalho
Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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