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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Em cima da hora

Minhas crônicas de quinta.

Vou logo tomando partido: estou em defesa e presto minha solidariedade aos atrasadinhos.

Não quero justificar seus atos, nem dizer que é bom o que eles fazem. Pelo contrário, enfatizo neste instante o quão danosa é a cultura da última hora. Isso é um fato. As coisas saem mal feitas, as pessoas ficam esperando e perdem a paciência, se não, algo pior. As pessoas têm prejuízos! Enfim, coisas chatas acontecem por conta dos mais diversos tipos de atraso.

Atrasos são ruins e ponto. Eles desarmonizam a vida e servem para quebrar qualquer tentativa de organização. Desordenar: essa é a função dos atrasos.

Pronto, demonstrei que tenho boa índole e um pouco de senso do ridículo, agora justifico minha união ao lado atrasado da força.

Falo pelos oprimidos, pelos acusados, aqueles que por mais broncas que tomem continuam perdendo ônibus, perdendo provas, entrevistas de emprego, perdendo a dignidade por aí e atrasando a própria vida.

É difícil conviver com o fantasma do atraso. É como uma doença crônica… falando em crônica, deixe-me definí-la antes de qualquer coisa. A palavra “crônica” parte da palavra grega “khónos“, que significa “tempo”, e do latim “chronica” que se refere ao registro de acontecimentos históricos, reais, demarcados pelo tempo (cronológico). O atraso crônico é uma doença crônica. Um desacordo com o tempo cronológico. Um desajuste no tic-tac do cerebelo. E, geralmente, vem acompanhado de uma comorbidade: o esquecimento. Às vezes você atrasa porque esqueceu. E às vezes esquece porque atrasou.

Ironicamente, o atraso corre ao lado da pressa. O atrasado está sempre correndo – não tem como não lembrar do Coelho Branco, do País das Maravilhas, sempre a consultar o seu relógio de bolso. O atrasadinho, de certo modo, é também um ligeirinho.

Veja bem a injustiça divina: o atrasado não gosta de perder tempo. Faz tudo o que tem que fazer – nem que seja descansar – até o último instante, justamente para aproveitar o tempo que tem e, depois, resolver tudo de uma vez, rápido. É tudo meticulosamente calculado. Até que, de repente, a luz vermelha se acende e ele pensa: “F****, tenho 10 minutos!”. E aí começa a saga, a correria.

Quando dá certo, sabe? Quando ele consegue tomar o seu banho, vestir a roupa, pentear os cabelos, passar desodorante, amarrar os cadarços, pegar o celular (carregado), pegar a carteira (com tudo dentro), a máscara (!) – em tempos de pandemia –,  o guarda-chuva – em tempos de verão –, fechar as janelas, trancar a porta e o portão, e, chegar no ponto de ônibus e ainda avistar o dito cujo apontando no horizonte… é prazeroso! É o supra-sumo do mais perfeito proveito do tempo.

Tá, podia ser menos emocionante, concordo. Menos arriscado. Menos suado.

E se, ao chegar e ver o busão, ele se lembra de que esqueceu as moedas da passagem em cima da mesa? A cobradora não aceita cartão de crédito… nem troca nota de 50. Numa dessas, o ônibus se aproxima, e, para além das perdas, não passar também vergonha, ele disfarça e finge que espera uma carona ali no ponto. E o ônibus segue viagem.

A depender do compromisso que o espera, cogitam-se as possibilidades: 1) Perder tempo à espera do próximo busão? 2) Gastar 5x ou até 10x mais com moto táxi ou com uber? 3) Desistir? 4) Aproveitar que está por ali e fazer outra coisa, tipo, visitar alguém de surpresa?

Como eu disse um pouco acima… desordenar: essa é a função dos atrasos.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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