Para a profissional Denise Barretto, a curadoria de obras de arte vai além da estética e se torna elemento central de ambientes com identidade, memória e significado
| A presença da arte nos projetos de interiores deixou de ser um complemento para assumir um papel protagonista. Mais do que integrar os interiores dos ambientes, obras de arte são capazes de conduzir narrativas, entregar histórias e orientar decisões de projeto desde o início. Para a arquiteta Denise Barretto, à frente de seu escritório homônimo, esse processo se inicia de diferentes formas. “Há situações em que a obra de arte direciona o projeto e há aquelas em que ela entra para complementar o ambiente. Ambas são possíveis”, alega. Seja como ponto de partida ou elemento de composição, a arte tem o poder de transformar espaços em extensões da identidade de seus moradores, dando origem a ambientes com profundidade, repertório e pertencimento. A seguir, a profissional compartilha algumas ideias para nortear a escolha de obras de arte para projetos de arquitetura: Curadoria personalizada entre galerias e garimpos |
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| A obra do pintor carioca Daniel Senise, denominada Invasor I, foi um dos pontos de partida do projeto da arquiteta Denise Barretto na Mostra Artefacto 2026 | Foto: Raphael Bries |
| O processo de curadoria começa com a busca por peças que dialoguem com o morador e o projeto. Nesse percurso, a profissional esclarece que diferentes fontes entram em cena, desde grandes galerias até espaços mais alternativos. “Geralmente, gosto de transitar entre endereços de garimpo ou, na maioria das vezes, em galerias. Em especial, as pequenas são sempre muito interessantes”, opina. Mais do que a origem da obra, o diferencial está no processo colaborativo: “É uma seleção que gostamos muito de fazer junto com o cliente”, complementa Denise. A história do morador como fio condutor |
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| No projeto, o conjunto de fine art reflete a atmosfera urbana e sofisticada deste projeto da arquiteta Denise Barretto | Fotos: Rômulo Fialdini |
| Entre os critérios de escolha, a narrativa pessoal ocupa lugar central. Cada obra precisa fazer sentido dentro do contexto de quem habita o espaço. “Sem dúvida, o ponto de partida é a história do cliente. Qual a relação dele com a obra de arte?”, destaca a arquiteta. Essa abordagem reforça o papel da arte como elemento que transcende a estética: “Ela vai muito além, valoriza a história dos moradores e as memórias afetivas daquela casa”. Integração total com o projeto |
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| O quadro Debris, do artista plástico Henrique Oliveira, renomado por suas esculturas orgânicas de troncos de árvore, traz uma reprodução em acrílica sobre tela de formas naturais desenhadas pela natureza | Projeto: Denise Barretto Arquitetura | Foto: Raphael Briest |
| Ao contrário do que se imagina, a arte não entra apenas no momento final da decoração. Em muitos casos, ela já está presente nas primeiras etapas do projeto. “Em geral, as obras de arte já estão presentes nos primeiros 3Ds que a gente apresenta para os clientes”, revela Denise. Essa integração garante coerência entre todos os elementos do ambiente. “A obra tem que conversar com o propósito do projeto. Ela faz parte desse contexto e dificilmente entra depois de tudo pronto”. Destaque ou silêncio: o papel da obra no ambiente |
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| Como fundo para a sala de jantar do projeto da arquiteta Denise Barretto para a Mostra Artefacto 2026, a obra sem título do arquiteto e artista Maurício Nogueira Lima (1930-1999) reflete o movimento artístico concretista. No projeto, o quadro surge como um complemento silencioso | Foto: Raphael Briest |
| Nem toda obra precisa ser protagonista. Essa escolha faz parte da estratégia da curadoria. “Às vezes uma obra nasce com o intuito de ser um destaque do projeto, ou às vezes ela é algo mais silencioso”, explica. Quando a intenção é evidenciar a peça, recursos como iluminação e posicionamento entram em cena. De acordo com a arquiteta, obras de nomes consagrados, por exemplo, podem assumir o protagonismo e chamar atenção, exigindo um tratamento específico para a valorização. Escala, proporção e harmonia |
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| As cores do quadro principal deste projeto da arquiteta Denise Barretto são reproduzidas na decoração do living através da escolha dos tecidos: o sofá, o tapete, as capas das almofadas | Foto: Rômulo Fialdini |
| A relação entre a obra e o espaço é determinante para o sucesso da composição. Escala e proporção são fatores essenciais para garantir equilíbrio visual. “Eu não posso ter um sofá de quatro, cinco metros e ter uma arte de pequeno porte. É preciso trabalhar de forma equilibrada”, pontua Denise. A escolha envolve ainda decisões como trabalhar com uma peça única ou criar composições, como gallery walls, sempre buscando uma leitura harmônica do conjunto. Onde posicionar e como preservar |
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| Nem sempre a obra de arte precisa ser pendurada na parede. Neste projeto assinado pela arquiteta Denise Barretto, o quadro ficou apoiado no aparador, uma maneira delicada que evita intervenções na parede | Foto: Rômulo Fialdini |
| A definição do local ideal para a obra leva em conta tanto aspectos estéticos quanto técnicos. Ambientes sociais costumam ser os preferidos, enquanto áreas com incidência direta de sol exigem atenção redobrada. “O sol que incide diretamente em uma pintura pode mudar a aparência ou, pior, pode estragar a obra”, alerta a arquiteta. Essa preocupação se estende à iluminação, que precisa equilibrar valorização e conservação. “A iluminação tem que ser bem cuidadosa e analisar o calor para que não seja prejudicial à obra de arte”. Para a luz artificial que incide diretamente nas obras, a arquiteta recomenda o posicionamento a um ângulo de 30 graus da obra, devendo-se optar por luzes de LED com alto Índice de Reprodução de Cor (IRC) – superior a 90, preferencialmente –, pois não emite raios ultravioletas ou infravermelhos e assegura que as cores sejam vistas com bastante precisão. Quanto à temperatura de cor, Denise aponta que este fator altera a percepção das cores da obra. “Luzes com temperaturas mais altas, como 5.000K, destacam tons frios, à medida que temperaturas mais baixas, como 3.000K, favorecem tons quentes”, afirma. Identidade, memória e significado |
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| À esquerda, a obra Lingam, da série Tantra de Montez Magno, remete ao símbolo anicônico da energia vital e potência geradora no hinduísmo. A obra reflete a busca espiritual sublimada em uma linguagem plástica de ritmo, estrutura e silêncio. À direita, os quadros sem título de Lidia Lisbôa, pertencente à série Correntes da artista, explora ritmo e repetição por meio de formas circulares, utilizando alto contraste entre o preto e o branco para criar textura visual | Projeto: Denise Barretto Arquitetura | Fotos: Raphael Briest |
| No fim, a arte é o elemento que transforma um espaço funcional em um ambiente com alma. “A obra de arte ajuda muito a trazer identidade e personalidade para um espaço, como revela uma memória afetiva”, declara Denise. Sem ela, o ambiente perde força narrativa: “Você imagina uma sala sem nada? Que história ela vai contar?”. Ao integrar estética, técnica e emoção, a curadoria de obras de arte se consolida como um dos pilares dos projetos contemporâneos, capaz de traduzir, em cada detalhe, o DNA de quem habita o espaço. |
Autor:
Alexandre Agassi








