Há um fenômeno curioso, quase folclórico, no Brasil contemporâneo: a multidão de críticos profissionais de Paulo Freire que jamais abriram uma página de Paulo Freire. São especialistas em nada, doutores em manchete, pós-graduados em meme de WhatsApp. Se houvesse um currículo Lattes do preconceito, estariam todos com o “imenso prazer” de listar: “competências centrais: nunca li, mas sou contra”.
Eles falam de “doutrinação” com a segurança de quem decorou duas ou três frases soltas, retiradas de contexto por algum influencer ressentido, e agora desfila indignação como se defendesse a civilização ocidental de um ataque comunista vindo de um livro de pedagogia. É quase poético: o sujeito que não lê, revoltado contra um educador que justamente dedicou a vida a ensinar pessoas a ler o mundo. A ignorância se sente ameaçada quando alguém insiste que ninguém nasceu para ser objeto, apenas sujeito – isso é perigoso demais para quem prefere alunos dóceis, silenciosos e gratos pelo pouco que recebem.
Paulo Freire virou um espantalho conveniente. Não é preciso encarar a pobreza estrutural, o racismo, a desigualdade, a escola sucateada. É só apontar o dedo para um velho pernambucano que escreveu sobre opressores e oprimidos e gritar: “a culpa é dele!”. A escola não tem biblioteca? É culpa de Paulo Freire. O professor está exausto, mal pago, maltratado? Paulo Freire, claro. Uma criança não aprende a ler numa sala superlotada? Certamente a culpa é daquele “método comunista” que ninguém sabe qual é, mas todo mundo repete com ódio automático.
Existe uma elegância muito peculiar nesse tipo de crítica: a elegância do vazio. O sujeito não sabe diferenciar alfabetização de letramento, nunca ouviu falar de educação bancária, não faz ideia do que seja “conscientização”, mas repete com fervor religioso que “Paulo Freire destruiu a educação brasileira”. Como, exatamente? Silêncio. Ou, pior, um “eu vi num vídeo” proferido com a seriedade de quem cita Kant, mas na verdade está só ecoando um youtuber enfurecido com qualquer coisa que exija mais de dez minutos de atenção.
Há também o ódio de classe mal disfarçado. Freire incomoda porque disse que o povo não é burro, que gente pobre pensa, sente, interpreta, questiona, tem palavra, tem voz. Para muita gente, isso é uma afronta inaceitável. Melhor manter o pobre calado, grato, quieto, obediente, aceitando o mundo como está. Quando Paulo Freire afirma que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão, ele está dizendo que educação é encontro, diálogo, partilha de humanidade. Mas é mais conveniente transformar isso em “coisa de esquerdista” e encerrar a discussão com um meme. Dá menos trabalho do que reconhecer que há quem se beneficie diretamente de uma população mantida na ignorância.
Talvez o aspecto mais irônico seja este: quem acusa Paulo Freire de “estragar a educação” costuma ser justamente quem não pisa numa escola pública há décadas, quem não sabe quanto ganha um professor, quem jamais sentou para ouvir uma criança tentando entender o mundo a partir de sua própria realidade. Falam em “mérito” de dentro de condomínios de vidro, apontando o dedo para alunos que mal têm caderno. Acham “vitimismo” quando alguém lembra que tentar aprender com fome é um pouco mais difícil do que o coach da internet faz parecer.
É claro que Paulo Freire pode – e deve – ser criticado. Todo autor sério merece leitura crítica, debate, discordância fundamentada. O problema não é criticar Paulo Freire. O problema é nunca ter lido Paulo Freire e achar que vídeo de cinco minutos substitui livro, contexto, história e reflexão. É querer vencer uma discussão sobre educação com a mesma profundidade de quem comenta reality show no bar. Nada contra o bar, nada contra o reality. Mas, se é para falar sobre a obra de alguém que atravessou o mundo discutindo alfabetização de adultos, democracia e libertação, talvez seja pedir demais que se leia ao menos um capítulo antes de decretar sentença?
Mas não, o que temos é um tribunal da ignorância, autoconfiante e barulhento. O réu é um pedagogo falecido. A acusação se baseia em recortes de rede social, boatos, mentiras bem embaladas. A defesa sequer é ouvida, porque exigiria algo insuportável: tempo, leitura, nuance. E nuance é o pesadelo de quem vive de certezas fáceis. As pessoas que nunca leram Paulo Freire mas o odeiam precisam dele exatamente assim: reduzido, distorcido, simplificado ao ponto de caber em um xingamento. Se o lessem, teriam de lidar com perguntas incômodas, como “quem se beneficia quando o oprimido não percebe que é oprimido?”.
No fundo, o ataque cego a Paulo Freire diz muito mais sobre os acusadores do que sobre ele. Revela uma aversão profunda à ideia de que pobres pensem, que alunos questionem, que professores sejam reconhecidos como intelectuais e não simples executores de apostila. Revela o medo de um país que aprende a ler não só as letras, mas as estruturas que o mantêm desigual. Porque, se o povo aprende a ler o mundo, chega a perigosa possibilidade de querer reescrevê-lo.
Talvez por isso insistam tanto em não lê-lo. Ler Paulo Freire dá trabalho, atrapalha o conforto da ignorância, estraga o prazer de repetir chavões sem culpa. É muito mais tranquilo chamar de “lixo marxista” o livro que nunca se teve nas mãos. Aí sim a vida segue leve, sem perguntas difíceis, sem necessidade de reconhecer que o verdadeiro problema da educação brasileira não é um pedagogo pernambucano, mas a opção histórica por manter a maioria apenas suficientemente educada para obedecer, nunca para transformar.
No fim, fica a cena: um país desigual, uma escola em ruínas, professores exaustos, crianças abandonadas, e um coro de indignados apontando o dedo para o fantasma de Paulo Freire, como se exorcizar um livro pudesse substituir a construção de uma política pública séria. A certos críticos, caberia um conselho singelo, quase pedagógico: antes de falar mal, leia. Se depois de ler ainda quiser odiar, ao menos será um ódio alfabetizado. E, convenhamos, num país que vive de opiniões analfabetas, isso já seria um passo evolutivo quase revolucionário.


