Um resgate necessário

Depois de pensar muito a respeito, vou afirmar sem filtros porque consideraro que a gente precisa esquecer as nossas diferenças e trabalhar juntos por uma causa realmente importante: fazer as pessoas voltarem a sentir vergonha de serem burras.

A frase é provocativa, mas talvez seja justamente essa provocação que permita tocar num problema que se espalhou de forma visível no espaço público.

Em algum momento recente, a relação entre ignorância e exposição mudou de natureza. Houve um tempo em que não saber alguma coisa levava naturalmente à cautela. As pessoas falavam mais quando se sentiam minimamente seguras sobre o assunto. Não era um ambiente perfeito, longe disso, mas existia uma espécie de freio cultural que evitava transformar qualquer opinião improvisada em verdade proclamada.

A expansão das redes sociais alterou esse cenário. A tecnologia ampliou de maneira extraordinária o alcance das palavras. Um comentário escrito sem reflexão pode atravessar milhares de telas em poucos minutos. Aquilo que antes ficaria restrito a uma conversa casual agora ganha dimensão pública.

Foi nesse contexto que o escritor italiano Umberto Eco fez uma observação que se tornou famosa em 2015. Ele afirmou que as redes sociais deram o direito à fala a uma legião de imbecis que, antes, falavam apenas no bar depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade.

A frase gerou reações intensas porque parece dura. Ainda assim, ela aponta para uma mudança real na forma como a ignorância circula. Quando uma afirmação sem fundamento ganha grande alcance, o problema deixa de ser apenas individual. A desinformação passa a influenciar debates coletivos, decisões políticas e percepções sobre a realidade.

A dificuldade aumenta quando o erro deixa de causar constrangimento. A exposição pública da ignorância passa então a ocorrer sem qualquer freio social. Em certos ambientes digitais, o conhecimento chega a ser tratado como sinal de arrogância, enquanto a opinião improvisada recebe aplausos.

Talvez por isso seja útil recuperar uma ideia simples. Reconhecer limites intelectuais nunca foi um defeito. Dizer que não sabe alguma coisa pode ser o primeiro passo para aprender. Esse gesto exige humildade, mas também protege o espaço público de ruídos desnecessários.

Voltar a valorizar o silêncio diante do desconhecido pode parecer um detalhe pequeno. Em tempos de comunicação permanente, porém, esse detalhe pode fazer muita diferença.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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