Antes de entender, já disseram

Em tempos de redes sociais, estudar sobre um assunto é apenas um detalhe a se desconsiderar. O importante é opinar, mesmo sem ter o mínimo conhecimento sobre o que se está comentando.

Eu vejo isso acontecer com nitidez dentro da sala de aula. Não é uma cena excepcional; se repete com uma naturalidade que chega a inquietar. Apresento um tema, abro espaço, e as falas surgem rápidas, seguras, com uma forma que impressiona. Há construção, vocabulário, firmeza, intenção. Falta base.

Peço então um gesto mínimo. Mostre-me onde isso está no texto. Não elevo a voz, não tensiono o momento. Apenas devolvo a pergunta ao lugar de origem. O aluno volta ao papel. Os olhos percorrem as linhas com uma pressa que já não encontra o que procurava. A resposta não está ali. A fala que antes parecia inteira começa a se desfazer em silêncio.

Em outra aula, um texto curto. Uma página, talvez menos. Pedi a tese. A palavra tese ainda assusta alguns, como se carregasse um peso desnecessário. Vieram respostas que rodeavam o assunto, que tocavam o tema sem entrar nele. Pedi que apontassem um trecho. Um só. Houve um instante de suspensão. Foi ali que alguns perceberam que tinham falado antes de ler de fato.

Com os vídeos, a coisa ganha outra densidade. A imagem prende, a fala conduz, a conclusão chega pronta. O aluno repete. Repete bem. Repete com convicção. Pergunto o que sustenta aquilo. A frase perde o corpo. Voltamos ao vídeo. Pausamos. O que antes parecia cheio revela espaços vazios. O olhar muda. Não completamente, mas o suficiente para criar uma fresta.

Há um momento curioso nesse processo. Quando proponho que leiam com calma, algo no corpo reage. A inquietação aparece nos dedos, no olhar que escapa, na tentativa de sair antes de entrar. Permanecer diante de um texto exige uma espécie de disciplina que não se ensina com regra, mas com insistência e alguma intolerância à inércia.

Um aluno me disse, quase em tom de descoberta, que nunca tinha relido um parágrafo. Leu de novo. Depois mais uma vez. Na terceira leitura, encontrou algo que não tinha visto. Não havia novidade no papel. A novidade estava nele.

Essas pequenas experiências vão se acumulando. Não fazem barulho. Não rendem frases prontas. Mas deslocam alguma coisa.

A opinião continua surgindo com facilidade. É um ato que chega antes, ocupa espaço, pede reconhecimento imediato, firmada em si mesma. A sustentação exige outro tipo de movimento. É necessário voltar, procurar, sustentar o que se diz com algo que não seja apenas a própria vontade de dizer.

Ler, então, passa a ser um exercício de demora, ato não cumulativo, um gesto que contraria a pressa, o enfrentamento silencioso com aquilo que não se entrega de imediato.

Eu fico com a sensação de que o problema não está na fala porque sei que falar sempre foi parte da evolução humana. O que se alterou foi o instante anterior. O entendimento deixou de ser condição e passou a ser consequência eventual, quase descartável.

E nesse intervalo, estreito e praticamente invisível, a leitura continua esperando alguém que aceite ficar um pouco mais.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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