Assisti à entrevista do pediatra Daniel Becker para a GloboNews. Ele faz um alerta que muitos ainda resistem em ouvir: o vício nas telas não é acaso, é projeto. E deixa claro quem são as maiores vítimas. Rolagem infinita, likes e algoritmos formam uma engenharia da dependência que atinge diretamente crianças e adolescentes.
No meu trabalho, isso deixa de ser um conceito e aparece em situações concretas. Já encontrei alunos que não conseguem sustentar a leitura de um texto de duas páginas sem interromper para olhar o celular. Em uma atividade simples, pedi que deixassem o aparelho sobre a mesa, virado para baixo, durante quarenta minutos. Alguns relataram incômodo físico, inquietação constante e dificuldade de concentração. O conteúdo da aula passou a disputar espaço com a expectativa de uma notificação que nem havia chegado.
Esses comportamentos dialogam com estudos recentes em neurociência e psicologia do comportamento. Pesquisas mostram que sistemas baseados em recompensas variáveis, como curtidas e notificações, ativam circuitos dopaminérgicos associados à expectativa de recompensa.
Esse mecanismo é semelhante ao observado em outros padrões de dependência comportamental. A diferença está na escala e na frequência com que ele é acionado no cotidiano.
Li também que, pela primeira vez, as big techs começam a ser julgadas não só pelo conteúdo, mas pelo modelo: a estratégia deliberada de capturar atenção e produzir vício. Empresas como Meta Platforms e TikTok estruturam suas plataformas com base em métricas de retenção. O tempo de permanência do usuário se torna indicador central. Documentos internos divulgados em investigações internacionais indicam que ajustes nos algoritmos são feitos para maximizar esse tempo, ampliando o engajamento contínuo.
O debate muda de eixo. Sai do uso individual e entra na responsabilidade de quem desenha o sistema. Em sala, isso aparece quando um aluno diz que “não consegue parar”, mesmo reconhecendo que o uso excessivo prejudica o estudo. A dificuldade deixa de ser apenas uma questão de disciplina pessoal e passa a envolver um ambiente projetado para manter o usuário conectado.
Ou seja, as plataformas operam como agentes que estimulam padrões de dependência e, em determinados contextos, acabam servindo de meio para práticas ilícitas que se aproveitam dessa mesma lógica de engajamento contínuo.
A regulamentação já entrou na pauta de diferentes países. A União Europeia, por exemplo, aprovou o Digital Services Act, que estabelece obrigações para plataformas digitais em relação à transparência e à proteção de usuários. Nos Estados Unidos, audiências no Congresso têm discutido o impacto dessas plataformas sobre a saúde mental de jovens, com base em relatos e documentos internos das próprias empresas.
A conscientização também aparece como necessidade concreta. Em sala, quando discuto com os alunos como esses sistemas funcionam, a percepção muda. Alguns passam a reconhecer padrões de uso que antes pareciam naturais. Esse tipo de compreensão não resolve o problema por completo, mas altera a forma como eles se relacionam com a tecnologia.
Os efeitos já são visíveis no cotidiano escolar, na dificuldade de concentração, na fragmentação da atenção e na ansiedade associada à desconexão. O prejuízo pode avançar ainda mais se esse processo continuar sem mediação crítica.


