Quando o Roubo Vira Meme e a Empatia Vira Bandeira

Demorei para escrever e, mais ainda, para ter coragem de publicar. Não foi por falta do que dizer, foi pelo excesso: excesso de lembrança, de indignação, de cansaço. E também porque, no Brasil de hoje, contar um fato real que te feriu pode virar convite para uma segunda agressão, agora em forma de comentário, ameaça velada, deboche ou perseguição. A gente aprende, na marra, que existe um tipo de ódio político que não se contenta em discordar; ele quer constranger, calar, expor, intimidar, fazer a pessoa pensar duas vezes antes de existir em público. Escrever sobre isso, então, não é só desabafo. É decidir enfrentar esse mecanismo que transforma dor em alvo e relato em provocação.

A casa vazia nunca está realmente vazia. Ela guarda documentos, lembranças, economias de meses, planos de família. Guarda, principalmente, aquela sensação de abrigo que a gente só percebe como é preciosa quando alguém arromba a porta e transforma o lar em cenário de violação. Naquele dia, eu não estava presente. Minha esposa, grávida, foi quem chegou primeiro. Encontrou sinais de invasão, rastros de pressa e de desprezo, e um silêncio que grita. Não é só medo; é uma espécie de tremor moral, como se o mundo tivesse avisado que pode te tocar onde mais dói e ir embora rindo.

O que deveria ser apenas um episódio de violência patrimonial, daqueles que já são traumáticos por si, ganhou um segundo assalto, um assalto simbólico, mais barato e mais covarde. Alguém decidiu ir à internet debochar do infortúnio alheio com a frase “que notícia maravilhosa. Chora não, faz o L”. A casa revirada virou argumento. O pavor de uma mulher grávida virou piada. A dor virou torcida. A ideologia virou licença para desumanizar.

Há um momento em que a política deixa de ser debate e vira catarse. No Brasil, nos últimos anos, esse momento foi empurrado para dentro do cotidiano como se fosse normal. A conversa sobre país, que deveria organizar divergências, passou a organizar ódios. E nesse processo, o ódio político, em maioria e intensidade vindo da extrema direita, encontrou um jeito de se espalhar com eficácia: ele se fantasiou de virtude.

É um fenômeno curioso e bem brasileiro: a pessoa diz defender a família, a moral, os bons costumes, mas celebra uma família em choque. Diz defender a vida, mas vibra com o sofrimento do outro. Diz defender Deus, mas usa o nome de Deus como selo de autenticidade para a própria crueldade. Diz defender a ordem, mas se alimenta do caos emocional, do linchamento público, da humilhação como entretenimento. É uma devoção de superfície, um credo de vitrine, que não resiste a um teste simples: como você trata alguém quando esse alguém está no chão.

A internet acelerou isso como gasolina em brasa. Ela recompensa a frase de efeito, o deboche, o tapa verbal, a maldade com emoji de risada. E quando a política entra nesse mecanismo, ela vira time, vira rivalidade de estádio, vira a lógica do “se doeu, acertou”. A dor do outro deixa de ser um limite e vira evidência de vitória. Se a pessoa chora, melhor. Se a pessoa perde, ótimo. Se a pessoa se desespera, “mereceu”. A frase “faz o L” não é apenas provocação. Ela é um atalho para dizer que o outro não é gente, é símbolo, é alvo, é culpado por existir de um jeito diferente.

E aí mora a hipocrisia central. A extrema direita no Brasil costuma bradar, com a garganta cheia e o peito estufado, que está lutando contra o ódio, contra a corrupção moral, contra a degradação dos valores. Mas na prática, com frequência, promove exatamente o contrário do que anuncia. Porque valor que só vale para os seus não é valor, é contrato de conveniência. Moral que se aplica apenas ao próprio grupo não é moral, é proteção de gangue. Fé que se manifesta como prazer no sofrimento alheio não é fé, é marketing emocional.

O mais perverso é que esse tipo de comportamento não precisa estar em maioria numérica para dominar o ambiente. Basta ser mais intenso, mais barulhento, mais insistente. Basta transformar a desumanização em método. Basta tratar qualquer discordância como ameaça existencial. E nesse modelo, o adversário político vira inimigo moral, o inimigo moral vira inimigo humano, e o inimigo humano pode ser chutado sem culpa. A pessoa não está mais rindo de um roubo; ela está rindo da ideia de que você merece ser roubado por pensar diferente. É a justiça privada do ressentimento, com legenda pronta para postagem.

Esse ódio também é preguiçoso. Ele não quer entender contexto, não quer complexidade, não quer ver a pessoa. Ele quer um rótulo. Quer um culpado instantâneo. Quer uma explicação que caiba num comentário. E quanto mais simples a explicação, mais fácil justificar a crueldade. Se você vira “o outro lado”, tudo se torna permitido. Inclusive aquilo que a própria pessoa diz condenar em voz alta. A moral vira fantasia de carnaval: colorida, ruidosa, mas retirada no primeiro desconforto.

Existe um Brasil que discorda, briga, debate, critica e até se excede, como qualquer sociedade. Mas existe também um Brasil que foi treinado a confundir brutalidade com sinceridade, grosseria com coragem, humilhação com justiça. Esse treinamento não aconteceu sozinho. Ele foi alimentado por lideranças, por influenciadores, por grupos que perceberam que indignação rende mais do que compaixão, que o escárnio mobiliza mais do que a escuta, que o medo organiza exércitos digitais.

No fim, a pergunta não é sobre esquerda ou direita como conceitos. A pergunta é sobre o que acontece com uma sociedade quando parte dela aprende a celebrar tragédias privadas como troféus políticos. Quando uma casa roubada vira punchline. Quando uma grávida assustada vira detalhe irrelevante. Quando a empatia, que deveria ser o mínimo civilizatório, passa a ser tratada como fraqueza, e a crueldade passa a ser tratada como identidade.

Talvez a imagem mais honesta desse período seja essa: gente que se diz patriota, mas torce contra o próprio povo; gente que se diz defensora da família, mas ri do terror dentro de uma família; gente que se diz pró Deus, mas se alimenta do escárnio. O país não adoece só por crises econômicas ou por violência urbana. Ele adoece quando o sofrimento do outro deixa de ser um freio e vira combustível.

E mesmo assim, não é um texto de desistência. É um texto de denúncia e de memória. Porque a normalização do deboche é uma forma de anestesia coletiva, e anestesia prolongada vira necrose. Reaprender a sentir a dor alheia não é romantismo, é sobrevivência social. Política tem que servir para organizar o futuro, não para autorizar a maldade.

Uma casa pode ser revirada e, com esforço, rearrumada. Portas podem ser trocadas, fechaduras reforçadas, objetos repostos. Mas quando alguém chama de “notícia maravilhosa” a violência que te atravessa, o que se tenta roubar não é só o que estava na gaveta. É a sua confiança básica de que, apesar de tudo, ainda existe um chão comum entre pessoas diferentes. O recado implícito é simples e monstruoso: se você não pensa como eu, você não merece paz.

Nenhum país aguenta isso por muito tempo sem pagar caro. E o preço sempre chega em parcelas, cobradas em forma de cinismo, isolamento, medo e rancor. A boa notícia, se houver uma, é que esse ciclo depende de adesão. O ódio precisa de plateia. A crueldade precisa de aplauso. E a hipocrisia só se sustenta enquanto a gente finge que não viu.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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