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Bancos Brasileiros Perdem Trilhões ao Ignorar Economia da Longevidade

Autor de “Brasil 2060” aponta que mercado financeiro trata envelhecimento populacional como tema secundário enquanto setor movimenta US$ 45 trilhões globalmente

São Paulo, 13 de maio de 2026

O Brasil envelhece em velocidade acelerada e o mercado financeiro ainda não acordou para o que isso significa em termos de negócio. Esse é o alerta de Willians Fiori, especialista em demografia e longevidade e autor do livro Brasil 2060, obra que mapeia a transformação silenciosa pela qual passa a sociedade brasileira. Enquanto bancos e instituições financeiras seguem oferecendo produtos genéricos para um público cada vez maior e mais diverso, uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas segue sem ser aproveitada.

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Os números são difíceis de ignorar. Em 2022, o Brasil registrava 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Segundo projeções demográficas apresentadas por Fiori, esse contingente chegará a 75 milhões em 2070, representando quase 38% da população total do país, uma fatia maior do que a população atual de toda a França.

“Isso não é detalhe demográfico. É mudança estrutural com impacto direto sobre consumo, saúde, trabalho, previdência e, especialmente, sobre o mercado financeiro”, afirma Fiori.

Trilhões em jogo

O fenômeno vai além das fronteiras brasileiras. A América Latina como um todo deve ter 280 milhões de pessoas com 50 anos ou mais até 2050. Segundo dados da AARP, organização americana de referência em estudos sobre longevidade, a chamada economia da longevidade movimentou US$ 45 trilhões em 2020, equivalente a 34% do PIB global. As projeções indicam que esse número pode saltar para US$ 118 trilhões até 2050, valor superior às economias combinadas dos Estados Unidos e da China nos dias de hoje.

Apesar disso, o mercado financeiro brasileiro ainda responde a essa demanda com produtos desenhados há décadas. O crédito consignado e os seguros genéricos seguem sendo as principais ofertas para um público que tem necessidades, projetos de vida e perfis de risco completamente distintos entre si.

“Os bancos seguem olhando para a maturidade pela lente estreita do consignado e do seguro genérico. Falta inteligência geracional”, critica Fiori.

Cinco gerações, um mesmo erro

Uma das distorções mais graves apontadas pelo especialista é a tendência de tratar todas as pessoas acima de 60 anos como um grupo homogêneo. No livro Diversa IDADE, escrito por Fiori em parceria com Tati Gracia, os autores defendem que cinco gerações convivem simultaneamente no trabalho, na família, no consumo e na vida cotidiana, mas sem necessariamente se compreender.

Na prática, as diferenças são profundas. Uma pessoa de 52 anos pode estar pagando a faculdade dos filhos enquanto cuida dos pais idosos. Uma de 68 pode estar na fase mais ativa e saudável da vida, viajando e reinvestindo patrimônio. Uma de 80 pode precisar, acima de tudo, de proteção patrimonial e instrumentos de defesa contra fraudes financeiras, que crescem de forma alarmante nessa faixa etária.

“São jornadas radicalmente diferentes, com riscos distintos e desejos que não cabem no mesmo produto de prateleira”, afirma Fiori.

O especialista chama atenção ainda para a feminização da longevidade. Mulheres vivem mais do que homens no Brasil e são maioria entre os idosos, mas chegam à maturidade com menor renda acumulada, carreiras mais fragmentadas pelas responsabilidades de cuidado e maior vulnerabilidade financeira no longo prazo. “Qual banco está desenhando produtos para essa vida real?”, questiona.

Preconceito etário como barreira de negócio

O próprio Banco Mundial já identificou os principais obstáculos para a inclusão financeira desse público: preconceito etário nos processos de desenvolvimento de produtos, ausência de dados segmentados por geração e inadequação das soluções disponíveis no mercado.

Para Fiori, o diagnóstico é direto. “Produto antigo com embalagem nova não é inovação”, afirma. A instituição financeira que compreender a longevidade de forma genuína terá condições de construir jornadas financeiras completas para cada fase da vida madura, transformando renda em proteção, patrimônio em autonomia e planejamento financeiro em liberdade real.

Oportunidade ainda disponível

O paradoxo apontado por Fiori é que, mesmo diante de dados tão expressivos, o espaço no mercado financeiro brasileiro voltado à longevidade segue amplamente disponível. Nenhuma instituição de grande porte consolidou ainda uma proposta de valor robusta e diferenciada para esse público.

“Quem tratar a maturidade como problema vai perder uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas. Quem entender que longevidade é mercado, inovação e responsabilidade social ao mesmo tempo vai ocupar um espaço que está, por incrível que pareça, ainda aberto”, conclui o especialista.

A economia da longevidade não é tendência futura no Brasil. É realidade presente que cresce a cada ano, a cada nova safra de brasileiros que entram na maturidade com mais saúde, mais consciência financeira e mais poder de decisão do que as gerações anteriores. O relógio corre, e os bancos ainda não ouviram o alarme.

Willians Fiori

Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003

Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein

Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP

Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger

Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema

Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo

Premiado pelo Premio Bstory Longevidade
Membro do conselho Europeu de Silver Economy

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