Cinema: “Mandioca Frita” e o sabor estranho do vazio contemporâneo

Mandioca Frita é um desses filmes que chegam de mansinho às plataformas de streaming, quase invisíveis na avalanche de lançamentos, e, ainda assim, grudam na cabeça como um pensamento incômodo. Lançado em 2023, disponível hoje no catálogo da Netflix, o longa parece nascer de uma provocação simples e poderosa: o que acontece com uma geração acostumada a gratificação instantânea quando é confrontada com a própria falta de sentido. O título, aparentemente banal, é a chave de leitura do filme. Aquilo que é barato, comum, fácil, quase um acompanhamento automático em qualquer mesa, vira metáfora da existência que se contenta com migalhas de prazer rápido e nenhuma profundidade.

A direção trabalha com uma narrativa que se mostra despretensiosa à primeira vista, quase como uma comédia leve, mas que aos poucos revela um incômodo existencial crescente. A protagonista, Júlia, presa a um emprego sem brilho e a relações que se arrastam por pura inércia, tem na mandioca frita o símbolo de suas escolhas automáticas. Ela pede o mesmo prato, frequenta os mesmos lugares, repete as mesmas conversas, gira em círculos enquanto a vida passa pela janela do ônibus lotado ou pela tela do celular. É um cotidiano saturado de pequenas gratificações que nunca se convertem em transformação real.

A fotografia reforça essa sensação de repetição: planos fechados em mesas de bar, luz amarelada, ruas noturnas que parecem sempre iguais, prédios cinzentos que poderiam estar em qualquer cidade grande. Não há grandiosidade, e isso é deliberado. O filme se recusa a oferecer aquela catarse clássica de roteiro que promete que tudo vai mudar com um gesto heroico ou uma grande reviravolta. Em Mandioca Frita, a mudança, quando vem, é sutil, quase silenciosa, feita mais de pequenos deslocamentos interiores do que de acontecimentos espetaculares. E aí reside parte de sua força, mas também de sua provável impopularidade para quem espera respostas claras.

O roteiro é povoado por diálogos que, em um primeiro momento, soam banais, mas que, justamente por isso, espelham o modo como falamos e nos esquivamos da própria profundidade. Personagens se protegem com ironia, com piadas rápidas, com o uso constante do celular como fuga. A mandioca frita no centro da mesa funciona como um ponto de encontro e de anestesia coletiva. Comemos para não falar, bebemos para não sentir, rolamos o feed para não pensar. O filme não aponta o dedo de forma moralista, mas também não deixa o espectador confortável. É como se dissesse que o problema não é o prato em si, mas o que fazemos com esse eterno petisco existencial que nunca evolui para um verdadeiro banquete de escolhas conscientes.

O ano de lançamento, 2023, não é apenas um dado frio de ficha técnica. É o contexto que ajuda a ler o filme como comentário direto sobre o pós-pandemia, a precarização silenciosa da vida emocional e o cansaço que parece ter se incorporado ao nosso modo de ser. Muitas pessoas saíram desse período com uma espécie de apetite nervoso, uma vontade de viver tudo ao mesmo tempo misturada a um medo profundo de se comprometer. Mandioca Frita retrata esse paradoxo: personagens famintos de experiência, mas que se contentam com o mínimo, desde que não exija coragem demais.

As possíveis reflexões que o filme provoca são múltiplas. Uma delas recai sobre o consumo, não apenas de comida, mas de entretenimento, de pessoas, de tempo. O longa sugere que transformamos quase tudo em produto descartável. Relações duram enquanto são convenientes, trabalhos são mantidos por medo de arriscar, sonhos são adiados indefinidamente sob o argumento de que não é a hora certa. Como a mandioca frita, é tudo gostoso na primeira mordida, mas não sustenta uma caminhada longa. O filme nos pergunta se não estamos confundindo conforto com vida plena, distração com felicidade.

Outra camada interessante é a forma como o longa aborda a solidão urbana. Não há grandes discursos sobre isso, mas há enquadramentos que insistem no corpo solitário em meio à multidão, na personagem que entra em casa e liga a televisão apenas para não ouvir o silêncio. A mandioca frita volta em diferentes momentos como companhia muda, um tipo de colo salgado e crocante para quem não quer encarar a própria incompletude. O filme convida a encarar o desconforto de ficar na própria presença sem muletas, sem o sal constante da distração.

Há também uma dimensão de classe e de horizonte de possibilidades. Mandioca Frita não se passa em um universo de luxo, mas no Brasil real, de ônibus cheio, salário que mal dá conta, lazer barato. É fácil julgar escolhas mornas quando se tem todas as portas abertas, mas o filme lembra que, para muita gente, ousar parece um privilégio distante. Ainda assim, ele se recusa a cair no determinismo. Reconhece os limites materiais, mas deixa escapar a pergunta incômoda: até que ponto usamos a falta de oportunidades como justificativa para não encarar os riscos que ainda assim podemos correr.

Do ponto de vista estético, o filme não é perfeito e por vezes parece hesitar entre o humor e o drama, sem encontrar sempre o equilíbrio mais fino. Alguns personagens secundários são pouco desenvolvidos, surgem quase como figuras-símbolo mais do que pessoas de carne e osso. Essa abordagem pode enfraquecer certas cenas, que soam mais ilustrativas que vividas. Ainda assim, a coesão temática e o modo como pequenos elementos do cotidiano ganham peso metafórico compensam essas falhas. Mandioca Frita é menos sobre a trama e mais sobre a sensação que deixa.

A beleza de Mandioca Frita está justamente em recusar um grande sermão. Ele não condena a porção compartilhada entre amigos, nem demoniza o prazer simples. O que o filme faz é perguntar, com delicadeza e certa acidez, se não estamos nos especializando em viver vidas porções, vidas que vêm sempre em pratos de plástico mental, já cortadas, já temperadas, prontas para serem consumidas sem muito esforço. E se, no fundo, quando a mesa é recolhida, não sobra apenas um grande vazio, um cheiro de óleo frio e a vaga sensação de que algo essencial ficou de fora.

Em uma época em que quase tudo é pensado para ser rápido, fácil e esquecível, Mandioca Frita se destaca como um pequeno filme que insiste em permanecer na memória, não pela grandiosidade, mas pela honestidade com que olha para nossa fome de sentido. Talvez não se torne um clássico, talvez divida opiniões, mas é inegável que oferece um espelho incômodo, desses que não podemos encarar por muito tempo sem ter vontade de mudar alguma coisa, ainda que pequena, na rotina.

Nota: 8,2 de 10.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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