O peso do poder

No meu mundo ideal, ocupar posições de poder seria considerado um agravante quando alguém que as ocupa cometesse um crime. A punição teria que ser maior do que a aplicada a um cidadão comum. O raciocínio é simples: quanto maior a autoridade, maior o alcance das decisões e, portanto, maior também o impacto do erro ou da corrupção. O exercício do poder ampliaria a responsabilidade jurídica, moral e política de quem o exerce. Autoridade deixaria de ser escudo e passaria a ser compromisso mensurável.

Essa ideia encontra eco em tradições antigas. Em Roma, magistrados que abusavam do cargo podiam sofrer sanções severas, porque se entendia que a confiança pública era um patrimônio coletivo. Durante a construção de instituições republicanas em diferentes partes do mundo, a mesma lógica reapareceu sob outras formas: a autoridade deriva da confiança social e, quando essa confiança é traída, o dano ultrapassa a esfera individual. Um cidadão comum pode cometer um delito com consequências limitadas. Um agente público tem a capacidade de alterar vidas inteiras através de uma decisão administrativa, judicial ou política.

No Brasil contemporâneo, essa discussão atravessa diretamente os três poderes da República. O Legislativo, o Executivo e o Judiciário concentram parcelas imensas de autoridade institucional, controlam orçamentos bilionários, elaboram leis, julgam conflitos e definem políticas públicas que moldam o cotidiano de mais de duzentos milhões de pessoas. Quando falhas graves ocorrem nesses níveis, os efeitos se espalham por toda a estrutura social.

No poder legislativo, o país assistiu a escândalos que marcaram profundamente a memória política recente. O chamado Mensalão, revelado em 2005, mostrou um esquema de compra sistemática de apoio parlamentar para aprovação de projetos no Congresso Nacional. Recursos desviados de contratos públicos eram utilizados para financiar pagamentos regulares a deputados que garantiam sustentação política ao governo da época. O julgamento desse caso ocorreu no Supremo Tribunal Federal e resultou em condenações importantes, mas também revelou algo que permanece no debate público: a distância entre o escândalo político e a responsabilização efetiva de muitos dos envolvidos ao longo do tempo.

Anos depois, a Operação Lava Jato, conduzida pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, revelou um sistema ainda mais amplo de corrupção envolvendo partidos políticos, grandes empreiteiras e contratos bilionários da estatal petrolífera do país. Investigações mostraram a existência de redes complexas de financiamento político ilegal, superfaturamento de obras e pagamento de propinas para parlamentares e integrantes do governo. Diversos empresários e políticos foram condenados. Ainda assim, muitos processos enfrentaram reversões judiciais, prescrições ou anulações, o que manteve viva na opinião pública a sensação de que o sistema possui mecanismos que frequentemente diluem as consequências jurídicas de grandes escândalos.

No poder executivo, episódios históricos também demonstram o alcance das decisões tomadas por autoridades. O processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello em 1992 surgiu após denúncias de corrupção envolvendo um esquema de arrecadação ilegal de recursos operado por aliados próximos do governo. Décadas depois, outra presidente, Dilma Rousseff, foi afastada do cargo em um processo de impeachment relacionado a irregularidades fiscais conhecidas como “pedaladas fiscais”. Cada um desses episódios mobilizou o país, gerou crises institucionais profundas e expôs fragilidades estruturais na relação entre poder político e responsabilidade pública.

O Judiciário, porém, ocupa uma posição particularmente sensível nesse debate. Juízes e tribunais representam a instância final de interpretação da lei. A sociedade deposita neles a expectativa de equilíbrio, imparcialidade e rigor técnico. Quando surgem casos de irregularidades dentro da própria magistratura, o impacto simbólico é ainda maior.

Um dos temas que frequentemente aparece nas discussões públicas envolve o regime disciplinar aplicado a magistrados. Em diversos casos investigados ao longo das últimas décadas, juízes acusados de irregularidades administrativas ou condutas incompatíveis com a função receberam como sanção máxima a aposentadoria compulsória. Essa punição significa o afastamento do cargo, mas com manutenção de remuneração proporcional ao tempo de serviço. A decisão costuma ser aplicada pelo Conselho Nacional de Justiça, órgão criado em 2004 justamente para fiscalizar a atuação administrativa do Judiciário.

Casos analisados pelo conselho ao longo dos anos envolveram acusações que iam desde venda de sentenças até favorecimento indevido em decisões judiciais. A punição administrativa resultou, em diversas situações, no afastamento do magistrado com preservação de parte de sua remuneração. Esse tipo de desfecho alimenta um debate intenso na sociedade sobre a proporcionalidade das sanções aplicadas a agentes públicos com grande poder institucional.

Outro episódio que gerou forte repercussão foi a discussão sobre o pagamento do chamado auxílio-moradia a magistrados. Durante anos, juízes de diversas instâncias receberam o benefício, mesmo em situações nas quais possuíam residência própria nas cidades onde atuavam. A prática foi autorizada por decisões judiciais e gerou um impacto financeiro expressivo nos cofres públicos. Somente após intensa pressão pública e debates institucionais o benefício passou por mudanças e revisões.

Esses exemplos ajudam a ilustrar um ponto central da reflexão: a distância entre responsabilidade institucional e consequência prática de condutas irregulares ainda constitui um dos grandes dilemas da democracia brasileira. Quando cargos de enorme autoridade se associam a sistemas disciplinares percebidos como brandos, instala-se uma sensação persistente de assimetria entre o cidadão comum e aqueles que exercem poder.

O problema não reside apenas em episódios isolados de corrupção ou irregularidade, mas se manifesta também na percepção social de que determinadas posições institucionais oferecem proteção estrutural contra consequências mais severas. Essa percepção corrói lentamente a confiança coletiva nas instituições públicas.

Uma república sólida depende de um princípio elementar: autoridade implica responsabilidade ampliada. Quanto maior o poder delegado por uma sociedade, maior deve ser o rigor aplicado quando esse poder é utilizado de forma abusiva ou ilegal. A confiança pública nasce dessa equação simples.

Quando a sociedade observa punições brandas para agentes que controlam grandes parcelas de poder político, administrativo ou judicial, surge um sentimento difuso de injustiça estrutural. O cidadão comum enfrenta rapidamente as consequências de seus atos diante da lei. Já as autoridades muitas vezes atravessam processos longos, complexos e repletos de salvaguardas institucionais.

Imaginar um sistema no qual o abuso de poder represente um agravante jurídico seria reafirmar o fundamento ético da própria ideia de república. Autoridade deixaria de ser vista como privilégio e passaria a representar uma forma intensificada de responsabilidade diante da sociedade.

Um país amadurece institucionalmente quando essa lógica se torna parte natural de sua cultura política. O poder, nesse cenário, deixa de ser proteção pessoal e passa a ser aquilo que sempre deveria ter sido: um encargo público exercido sob vigilância permanente da sociedade que o concedeu.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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