Certa vez, em diálogo com amigos, surgiu a questão: quais são as maiores máfias legalizadas do Brasil?
Respostas colhidas:
Detran.
Empresas de formatura.
Cartório.
Autoescola.
Aluguel de vestido de casamento.
Guincho de carro.
Estacionamento de aeroporto.
Conserto de iPhone.
Buffet de casamento.
Mecânico para leigos.
Fotógrafo de formatura.
Farmácia.
Flanelinha.
Cambista.
Posto de gasolina.
Bancos e empresas de crédito.
Telefonia e internet.
Pedágio.
Hipermercado.
Rede empresarial.
Despachante.
Funerária.
Posto de combustível.
Pedágio outra vez.
Atacadista.
Bancas de concurso.
Barraqueiros de praia.
Reitoria de universidade pública.
Sicoob.
Caixa Econômica.
Lotérica.
Locadoras de carro.
E muito mais.
A lista parece um desabafo de mesa de bar, dessas conversas em que alguém começa reclamando de uma taxa e termina descrevendo um sistema inteiro. Ainda assim, ela revela uma sensação bastante difundida no cotidiano brasileiro: a impressão de que a vida no país é atravessada por uma sequência quase infinita de intermediações obrigatórias.
Em algum momento da vida, todo cidadão passa pelo labirinto de taxas do trânsito. Para dirigir, entra-se no universo de provas, exames médicos, aulas obrigatórias e uma série de pagamentos vinculados ao Departamento Estadual de Trânsito. Depois vem o licenciamento anual, as vistorias, as transferências. Cada etapa envolve documentos, filas, pagamentos e intermediários especializados em resolver aquilo que o próprio sistema criou.
Em outra fase da vida, surge o cartório. Registro de nascimento, casamento, compra de imóvel, reconhecimento de firma, autenticação de documentos. A vida civil inteira passa por esse balcão. O modelo brasileiro de registros públicos nasceu ainda sob influência da burocracia portuguesa e sobreviveu com vigor admirável. Em muitas cidades, cartórios figuram entre as atividades mais lucrativas do município.
A juventude universitária descobre outro circuito: as formaturas. Empresas especializadas oferecem pacotes completos de festas, fotografia, becas, álbuns e bailes. Contratos coletivos transformam a celebração em um compromisso financeiro de longo prazo. Muitos estudantes passam anos pagando parcelas para garantir uma noite de festa que simboliza o encerramento de um ciclo.
O mesmo mecanismo aparece em momentos marcantes da vida adulta. Casamentos movimentam buffets, locações de vestidos, fotógrafos e decoradores. Funerárias organizam despedidas quando a morte chega. Em cada evento social importante existe um conjunto de serviços especializados que operam como intermediários inevitáveis.
A tecnologia criou novas versões desse fenômeno. Um aparelho quebrado leva o consumidor a oficinas técnicas que dominam ferramentas, peças e softwares específicos. Usuários de aparelhos da Apple frequentemente mencionam o custo de manutenção de um iPhone como exemplo clássico dessa dependência técnica.
A infraestrutura urbana também tem suas próprias engrenagens. Estacionamentos de aeroportos cobram tarifas que fazem qualquer motorista reconsiderar a duração da viagem. Rodovias concedidas à iniciativa privada instalam pedágios ao longo do percurso. Guinchos aparecem quando o carro falha. Cada solução carrega um preço.
O sistema financeiro amplia esse cenário. Bancos comerciais, cooperativas e operadores de crédito administram contas, financiamentos e pagamentos. Instituições como a Caixa Econômica Federal convivem com cooperativas como o Sicoob dentro de uma estrutura que movimenta bilhões de reais em tarifas, juros e serviços bancários.
Até o caminho para um emprego público cria um mercado próprio. Concursos organizados por bancas examinadoras movimentam milhares de candidatos e milhões de reais em inscrições. Cursos preparatórios, apostilas e simulados formam uma indústria paralela dedicada à promessa de estabilidade.
No cotidiano das cidades, outras figuras completam esse mosaico. Flanelinhas vigiam carros estacionados nas ruas. Cambistas negociam ingressos em frente a estádios. Barraqueiros ocupam faixas inteiras de praia. Cada um representa uma forma de intermediação surgida dentro das brechas da economia urbana.
A impressão que resta depois de observar esse conjunto é curiosa. A vida brasileira parece estruturada como uma sequência de portas. Para atravessar cada uma delas existe alguém cobrando pedágio. Às vezes é uma taxa oficial. Às vezes é uma tarifa privada. Às vezes é apenas o preço informal de um serviço improvisado.
O cidadão segue atravessando essas portas ao longo da vida. Paga para dirigir. Paga para registrar documentos. Paga para casar. Paga para estudar. Paga para viajar. Paga para resolver problemas técnicos. Paga até para encerrar formalmente a própria existência.
Essa percepção provoca uma pergunta silenciosa que muitos brasileiros carregam sem formular com clareza. Em que momento a organização necessária da vida coletiva passou a se confundir com um sistema permanente de intermediações?
Talvez a resposta esteja escondida no próprio funcionamento da sociedade moderna. Cada regra cria um serviço. Cada serviço cria um intermediário. Cada intermediário transforma a regra em atividade econômica.
Assim se forma o país das intermediações, um território onde quase tudo funciona através de alguém situado entre o cidadão e aquilo que ele precisa fazer.
E quem aprende a observar essas engrenagens passa a perceber que grande parte da vida social acontece exatamente nesse espaço invisível entre a necessidade e o pagamento.


