Cinema: Caminhos da Memória e a saudade como tecnologia, quando lembrar vira um jeito de se perder

Há filmes que querem contar uma história e há filmes que querem construir um clima, como quem apaga as luzes, acende um abajur e deixa o ar cheio de poeira dourada. Caminhos da Memória é desse segundo tipo. Lançado em 2021, dirigido por Lisa Joy, ele veste o figurino do noir e mergulha numa ficção científica melancólica, daquelas que parecem sempre acontecer ao som de chuva em vidro e passos lentos em ruas molhadas.

A trama nos leva a uma Miami do futuro parcialmente submersa, quente, decadente e sedutora, onde o passado tem mais valor do que qualquer promessa de amanhã. É ali que Nick Bannister, vivido por Hugh Jackman, trabalha com uma máquina capaz de reconstituir memórias. Pessoas pagam para retornar a um instante perdido, procurar uma pista, reviver um amor, conferir se foram felizes de verdade ou apenas se convencer disso. O serviço é vendido como instrumento de cura, mas o filme faz questão de insinuar desde cedo que mexer com lembranças é como cutucar uma ferida que aprende a cantar.

O motor emocional do enredo aparece quando surge Mae, interpretada por Rebecca Ferguson, e a história se inclina para o romance, para a obsessão e para o tipo de investigação em que a verdade nunca vem limpa. A partir desse encontro, Nick deixa de ser operador e vira cliente do próprio vício. Ele entra e reentra na mesma lembrança como quem volta ao mar sabendo que o mar não devolve nada igual. Ao redor deles, a narrativa convoca Thandiwe Newton como presença forte e magnética, e espalha personagens que parecem carregados de segredos como bolsos cheios de pedras.

Em termos de detalhes, o filme é generoso com a atmosfera. A fotografia trabalha a luz como se fosse memória também, com reflexos e sombras que dão a sensação de que tudo está sempre meio distorcido, meio romantizado, como acontece quando a gente lembra do que ama. A direção de arte acerta em cheio ao usar a cidade inundada não como espetáculo, mas como metáfora. A água está por toda parte, insistente, como o passado quando decide ocupar a casa inteira.

Agora, a opinião, sem a qual isso vira apenas sinopse bem vestida. Caminhos da Memória é um filme bonito, às vezes mais bonito do que preciso, e isso é elogio e crítica ao mesmo tempo. Ele tem ideias excelentes sobre a nossa relação com lembranças, sobre o conforto perigoso de revisitar o que já acabou, sobre como a nostalgia pode ser uma droga elegante, com embalagem de veludo. Só que em alguns momentos ele parece apaixonado demais pela própria fumaça, e a trama policial, que deveria apertar o nó, por vezes se dispersa como perfume no calor. Ainda assim, quando funciona, funciona com uma doçura amarga que fica na boca.

As reflexões possíveis são muitas, e o filme convida a algumas que doem porque são verdadeiras:

  • Memória não é arquivo, é montagem. A máquina do filme promete fidelidade, mas a própria linguagem nos lembra que recordar é selecionar, iluminar, esconder. A lembrança é sempre uma edição com trilha sonora.
  • A dor pode virar identidade. Nick não busca apenas respostas, ele busca permanecer ligado a uma perda. Há gente que, sem perceber, transforma saudade em morada.
  • Tecnologia não cria vícios do nada, ela dá forma aos que já existiam. No universo do filme, a máquina é só um espelho mais nítido para uma tendência humana antiga, a de preferir o passado porque ele não exige coragem.
  • O futuro inundado parece menos sobre clima e mais sobre emoção. A cidade alagada sugere um mundo onde o que transbordou foi a capacidade de seguir em frente, como se todos estivessem vivendo com água nos tornozelos, caminhando devagar para não cair.

Quanto à disponibilidade, Caminhos da Memória costuma estar no catálogo da Max em diversos mercados, e também aparece com frequência para aluguel ou compra digital em lojas como Apple TV e Google Play Filmes, variando conforme o país e o período.

No fim, o filme deixa uma pergunta silenciosa, sem precisar formulá la. Se fosse possível revisitar exatamente aquilo que nos partiu, quantas vezes nós iríamos antes de admitir que lembrar não é o mesmo que viver.

Nota: 7,4 de 10

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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