Cinema: “Bata Antes de Entrar” e a Tentação de Abrir a Porta Certa no Pior Momento

Lançado em 2015Bata Antes de Entrar (título original Knock Knock) é aquele tipo de thriller que parece começar como um teste de caráter simples e termina como uma autópsia moral feita a portas fechadas. Dirigido por Eli Roth e estrelado por Keanu Reeves (Evan), o filme parte de uma premissa quase banal, numa noite chuvosa, duas desconhecidas batem à porta pedindo ajuda. O que poderia ser apenas gentileza vira flerte, o flerte vira erro, e o erro vira um pesadelo meticulosamente encenado para expor não só o que o protagonista fez, mas principalmente o que ele achou que “daria para controlar”.

No enredo, Evan é um homem de família, confortável em sua casa bonita, seu casamento aparentemente estável e sua rotina de pai presente. A esposa e os filhos viajam, ele fica sozinho, e a casa, que antes parecia um abrigo, começa a se comportar como palco. Quando Genesis (Lorenza Izzo) e Bel (Ana de Armas) aparecem encharcadas e vulneráveis, o filme faz uma escolha inteligente e incômoda, não apressa a violência. Primeiro seduz com conversa, com a falsa sensação de que a história ainda é sobre desejo e vaidade. A virada acontece quando a visita deixa de ser visita e vira julgamento. Não um julgamento legal, mas um tribunal íntimo, cruel, performático.

O mérito de Bata Antes de Entrar está em como ele transforma um cenário doméstico em armadilha psicológica. A casa vira labirinto moral. Cada cômodo deixa de ser espaço e passa a ser argumento. A cozinha não é onde se prepara comida, é onde se prepara a humilhação. A sala não é onde se recebe alguém, é onde se perde autoridade. O quarto não é intimidade, é exposição. E assim, sem precisar de monstros sobrenaturais, o filme entrega um terror bem contemporâneo, o terror de ter a própria imagem arrancada da parede e usada contra você.

Há também uma camada curiosa sobre poder e narrativa. O protagonista tenta negociar, explicar, minimizar, dar nome aos acontecimentos como quem tenta recuperar o volante. Mas o filme insiste que, quando você erra achando que está no controle, o que vem depois costuma ser a consequência mais humilhante, a de perceber que a sua versão dos fatos não é mais a versão dominante. Nesse ponto, o longa flerta com uma pergunta desconfortável, a culpa é apenas pelo ato, ou pela arrogância com que ele é cometido, pela certeza de impunidade, pela crença de que tudo pode ser “resolvido depois”?

As duas visitantes, por sua vez, são construídas menos como pessoas comuns e mais como forças dramáticas, quase alegorias do caos. Isso pode afastar quem procura realismo psicológico, mas serve bem ao tom de fábula sombria. Elas operam como espelho e lâmina. Espelho, porque refletem o desejo e a vaidade do anfitrião. Lâmina, porque cortam a máscara de homem correto que ele sustenta enquanto tudo vai bem. É um filme que gosta do exagero, e quando exagera, não é para pedir desculpas. É para deixar marcas.

Como reflexão, Bata Antes de Entrar funciona como um estudo de limites. Limites entre gentileza e imprudência. Entre solidão e autossabotagem. Entre fantasia e responsabilidade. E também como um alerta sobre o autoengano, aquele pensamento confortável de que “nunca aconteceria comigo”, até acontecer, e ainda assim a pessoa tenta discutir com o desastre como se desastre aceitasse debate. No fim, a sensação é amarga porque o filme não entrega catarse limpa. Entrega uma moral arranhada, como se dissesse que certas portas, uma vez abertas, não se fecham com a mesma mão.

Onde assistir: Lionsgate Plus

Nota: 7,5/10

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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