Cinema: “Aquaman e o Reino Perdido”, o brilho do abismo e a ressaca do universo DC

Há filmes que chegam como onda perfeita e outros que vêm como maré cheia, bonita, barulhenta, inevitável. Aquaman e o Reino Perdido é isso. Um espetáculo que sabe que nasceu para a tela grande, mas que também funciona como sessão caseira de sábado, quando a gente só quer duas horas de cor, criatura marinha improvável e um herói que parece ter saído de um cartaz de rock molhado pela chuva.

Lançado em 2023, o longa dirigido por James Wan volta a colocar Arthur Curry no olho do furacão. Jason Momoa segue com aquela energia de quem resolve problemas primeiro com o peito e depois com a diplomacia, embora aqui o roteiro faça questão de lembrar que reinar não é posar para fotos, é tomar decisões que deixam marcas. A trama é movida pela sede de vingança de Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), agora com um poder mais sombrio nas mãos, uma ameaça que não quer apenas derrotar Aquaman, mas envenenar tudo o que ele tenta proteger. Para encarar isso, o filme aposta na sua melhor carta dramática: a aliança incômoda e deliciosa entre Arthur e Orm (Patrick Wilson), dois irmãos com feridas antigas, sarcasmo como idioma comum e uma química que sustenta boa parte do coração do filme.

No Brasil, o filme está disponível na plataforma Max. Dependendo do período, também pode aparecer para aluguel ou compra em lojas digitais, mas o endereço mais direto para “dar o play” e mergulhar é mesmo o streaming da Warner.

O que Aquaman e o Reino Perdido faz com mais competência é construir um parque de diversões subaquático. A direção trata a ação como coreografia de espuma e metal, com criaturas enormes, tecnologias atlantes que parecem saídas de um delírio art déco e cenários que não têm medo de ser fantasiosos. Há um prazer quase infantil em ver esse mundo funcionar sem pedir desculpas por ser exagerado. É um filme que prefere a mitologia com purpurina ao realismo com cara fechada, e isso é uma escolha estética coerente com o personagem.

Ao mesmo tempo, existe uma sensação de despedida no ar. Mesmo sem transformar isso em discurso, o longa carrega o peso de ser um dos capítulos finais de uma fase do cinema de super heróis ligada ao antigo universo DC. E essa “ressaca” aparece em pequenos detalhes: algumas soluções apressadas, certas passagens que parecem costuradas para manter o ritmo, e um tom que oscila entre a aventura autoconsciente e a tentativa de levantar um drama mais solene. Ainda assim, quando o filme aceita sua natureza de conto pulp moderno, ele flui melhor. Quando tenta explicar demais, ele perde um pouco do encanto.

O relacionamento entre Arthur e Orm é a âncora emocional. É curioso como, num filme cheio de monstros e máquinas impossíveis, o que mais gruda na memória é o básico: dois irmãos descobrindo como cooperar sem se engolirem vivos. Essa parceria permite uma reflexão bem humana, quase doméstica, sobre maturidade. Ser forte não é só levantar um tridente. É engolir o orgulho, admitir limites, aceitar ajuda. O herói aqui não vira santo, ele vira adulto, o que é bem mais raro.

Também dá para ler o filme como um lembrete sobre consequências ambientais, ainda que embalado em fantasia. O oceano não é só cenário, é personagem, e quando ele adoece, tudo acima da linha d’água sente. Aquaman e o Reino Perdido não é um manifesto, mas é daqueles blockbusters que, sem perder a diversão, deixam escapar uma pergunta incômoda: quantas vezes a gente trata a natureza como depósito e depois se surpreende quando ela vira antagonista?

Há ainda outra camada simpática: a realeza aqui não é glamour, é responsabilidade impopular. O filme brinca com a ideia de que governar significa ser cobrado por todos os lados. Pela superfície, por Atlântida, pela própria família, pelos erros que você não cometeu, mas herdou. E no meio disso, Arthur continua sendo um cara que tenta equilibrar o mito com a vida, a pose com o cansaço, o dever com o desejo de simplesmente existir em paz.

No fim, Aquaman e o Reino Perdido é um filme que vale pelo mergulho sensorial, pelos momentos em que abraça o absurdo com convicção e pela dupla central que dá tempero ao épico. Não é impecável, não é revolucionário, mas é generoso em entretenimento. E às vezes é isso que a gente procura: sair da sessão com a sensação de ter visitado um lugar impossível, mesmo que só por duas horas.

Nota: 7,6/10

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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