Ser poliglota dentro da própria língua

Um conselho para quem quiser: invista no seu domínio da língua. Faz toda a diferença. Em qualquer área.

Isso aparece em situações muito concretas da vida profissional. Um engenheiro apresenta um relatório técnico para uma equipe de gestores. Um médico explica a um paciente o resultado de um exame delicado. Um advogado sustenta oralmente uma tese diante de um tribunal. Um professor precisa transformar um conteúdo complexo em algo inteligível para estudantes que chegam à sala com repertórios muito diferentes.

Em todos esses cenários, o conhecimento técnico importa muito. O modo de expressá-lo decide se ele será compreendido, respeitado ou simplesmente ignorado.

Não quer dizer saber gramática, diga-se. Também isso, claro. Mas língua é mais do que isso. A gramática organiza a estrutura do idioma, descreve concordâncias, regências, flexões verbais, formas de articulação entre as palavras. Esse conhecimento ajuda a produzir frases claras e a evitar ambiguidades que podem comprometer o sentido de uma comunicação.

Um relatório técnico mal pontuado pode alterar a interpretação de dados. Um contrato redigido com imprecisão pode gerar disputas jurídicas que se arrastam durante anos. No direito brasileiro existem inúmeros casos em que a interpretação de uma única vírgula altera o alcance de uma cláusula contratual.

Mas língua não se esgota nesse domínio estrutural. Língua é saber usar com propriedade a variante padrão do idioma, que é o passaporte social. Essa variedade linguística circula em ambientes institucionais que moldam grande parte da vida pública: universidades, tribunais, órgãos administrativos, publicações científicas, imprensa profissional. Quem domina essa forma de expressão encontra menos obstáculos para participar desses espaços. Trata-se de convenção social consolidada ao longo do tempo.

A história da escolarização mostra isso de maneira bastante concreta. Durante o século XIX e o início do século XX, o domínio da norma culta escrita tornou-se requisito para o ingresso em carreiras públicas e para a circulação em profissões liberais. Concursos, exames e processos seletivos passaram a exigir redações, relatórios, pareceres e textos argumentativos. Ainda hoje, grande parte dos concursos públicos no Brasil inclui provas discursivas nas quais a clareza e a precisão linguística pesam diretamente na avaliação.

Mas é fundamental saber, compreender e aceitar que há variações de registros, estilos, figuras. O idioma não existe apenas na forma padronizada ensinada pela escola. Ele vive em diferentes camadas sociais, regionais e culturais. O português falado em uma conversa familiar apresenta construções próprias, ritmos próprios, escolhas lexicais que pertencem à intimidade da convivência.

A linguagem de um tribunal organiza frases longas e precisas, com vocabulário técnico consolidado por séculos de prática jurídica. A linguagem jornalística procura clareza e concisão para atingir leitores de forma direta. A literatura explora imagens, metáforas e recursos expressivos que ampliam as possibilidades do idioma.

Que o certo e o errado são conjunturais. Essa afirmação encontra respaldo sólido na própria história da língua portuguesa. Expressões hoje consideradas naturais já foram vistas como inadequadas em outros períodos. A colocação pronominal oferece exemplos claros disso. Durante muito tempo a próclise em início de frase foi tratada como erro em gramáticas escolares. A prática real da língua, documentada por escritores e jornalistas ao longo do século XX, tornou essa construção cada vez mais comum no português brasileiro.

As diferenças regionais também mostram essa dinâmica. A pronúncia do “r” no interior de São Paulo, o ritmo das vogais abertas no Nordeste, o vocabulário próprio de regiões amazônicas ou do sul do país revelam que o idioma se adapta às comunidades que o utilizam. Essas variações não representam defeitos do sistema linguístico. Elas são manifestações naturais de uma língua viva.

Transitar nisso tudo nos faz poliglotas na própria língua, como diz Evanildo Bechara. A imagem é poderosa porque traduz uma habilidade rara. Uma pessoa que domina diferentes registros consegue conversar com naturalidade em ambientes diversos. Ela fala de um jeito em uma reunião acadêmica, de outro em uma conversa entre amigos, de outro ao escrever um texto formal ou ao participar de um debate público.

Essa flexibilidade aparece em muitos campos profissionais. Bons professores modulam a linguagem de acordo com o nível de seus alunos. Jornalistas experientes adaptam o vocabulário conforme o público de cada veículo. Médicos que conseguem explicar diagnósticos complexos em linguagem acessível produzem um impacto profundo na relação com seus pacientes. Lideranças políticas capazes de traduzir temas técnicos para a linguagem cotidiana alcançam públicos muito mais amplos.

Saber usar a língua é igual a dançar. Nada mais lindo do que ver alguém dançando forró com propriedade. E valsa. E samba. E funk. Quanto mais estilos, melhor. Isso é língua.

A comparação com a dança ajuda a visualizar esse domínio. Cada ritmo pede postura, cadência e movimento próprios. O corpo aprende a reconhecer essas diferenças e a responder a elas com naturalidade. Um dançarino experiente percebe a música e ajusta seus passos ao estilo que está tocando.

Com a língua acontece algo semelhante. Cada situação social pede um modo particular de expressão. Uma apresentação científica exige precisão terminológica. Uma conversa entre amigos permite informalidade e humor. Um discurso público pede clareza e organização das ideias. Um texto literário abre espaço para imagens e experimentação.

E, como eu disse, faz toda a diferença. Pessoas que desenvolvem essa sensibilidade linguística ampliam enormemente suas possibilidades de atuação. Elas conseguem comunicar ideias complexas, dialogar com públicos variados, circular entre ambientes sociais distintos.

Dominar a língua não significa apenas falar corretamente em ambientes formais; é compreender a riqueza de um instrumento que acompanha cada pensamento, cada conversa e cada gesto de comunicação ao longo da vida.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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