A hipocrisia conveniente no voto de André Mendonça sobre os direitos políticos de Cláudio Castro

A indignação com o voto de André Mendonça contra a perda de direitos políticos de Cláudio Castro não nasce apenas do resultado, mas do contraste entre personagem e prática. Mendonça costuma ser associado ao discurso de rigor moral, respeito estrito à lei e defesa de uma ética pública sem atalhos. Quando, num caso que envolve poder e alto custo político, a caneta escolhe o caminho que evita a sanção mais pesada, o público enxerga aquilo que no Brasil virou quase uma categoria jurídica informal: o legalismo seletivo. A regra é sagrada até o momento em que passa a atingir gente grande, e aí a regra vira delicada, complexa, cheia de “cautelas”, “balizas” e “necessidades de contenção”.

É claro que existe um argumento legítimo por trás desse tipo de posição. Sanções que mexem com direitos políticos são graves, e ministros podem entender que elas exigem critérios estritos, prova robusta, tipicidade bem amarrada e um devido processo sem frestas. O problema é que, na percepção pública, essa prudência aparece com uma frequência curiosamente maior quando o beneficiado tem nome, cargo e influência. Para quem assiste de fora, parece que a porta do tribunal abre com facilidade para a moralidade quando ela serve como discurso e fecha com cuidado quando ela cobra coerência. A lei, que deveria ser o chão comum, vira uma espécie de carpete que se desenrola com conforto para alguns e vira piso áspero para outros.

A acusação de hipocrisia, então, não depende de provar que o voto foi “ilegal”, mas de notar uma incoerência de temperamento institucional. Em certos temas, a retórica é de firmeza, de proteção da sociedade, de combate a desvios, de que a autoridade precisa dar exemplo. Em outros, especialmente quando o alvo é um agente político relevante, o tom muda para contenção, excepcionalidade e risco de punições desproporcionais. A sensação que isso produz é simples e devastadora: princípios que deveriam ser impessoais passam a parecer elásticos, adaptáveis ao personagem da vez. E quando a coerência falha, o tecnicismo, por mais bem escrito que esteja, soa menos como garantia de justiça e mais como justificativa elegante para um desfecho conveniente.

É por isso que esse tipo de voto costuma irritar mais do que convencer. Não porque o direito não comporte interpretações diferentes, ele comporta. Irrita porque, num país acostumado a ver a responsabilidade sempre escorregar para baixo e a proteção sempre subir para cima, qualquer decisão que preserve direitos políticos de quem tem poder é lida sob uma lente de desconfiança. Se o ministro constrói sua imagem pública sobre a ideia de que a moralidade e a legalidade precisam ser levadas a sério, espera-se que essa seriedade seja constante, inclusive quando incomoda aliados, desagrada bastidores e cria atrito com o mundo real, que é onde a coragem costuma faltar.

No fim, a crítica não é que um ministro não possa ser garantista. Pode, e às vezes deve. A crítica é quando o garantismo parece aparecer como guarda-chuva apenas na chuva certa. Aí o tribunal até pode continuar sendo técnico, mas deixa de parecer justo. E, no imaginário público, justiça que parece seletiva é só outra forma de impunidade, com português mais rebuscado e papel timbrado.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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