De todas as classes de parasitas, seja burgueses, políticos profissionais ou outros oportunistas, uma que eu tenho aprendido a olhar com severidade crescente são os juízes. A irritação tem origem na percepção reiterada de incompetência, elitismo, despreparo e descaso com a vida concreta que chega às mãos da magistratura brasileira. Não é aversão abstrata ao cargo, mas frustração diante da distância entre a autoridade exercida e a responsabilidade exigida.
O Judiciário ocupa posição singular na arquitetura institucional do país. Suas decisões interferem em liberdade, patrimônio, políticas públicas, acesso a medicamentos, reintegrações de posse, direitos trabalhistas, guarda de crianças. Um despacho pode significar a permanência de uma família em sua casa ou sua retirada imediata. Uma liminar pode garantir tratamento médico urgente ou atrasá-lo a ponto de torná-lo inútil. A função exige preparo técnico sólido, sensibilidade social e consciência das consequências práticas de cada ato.
Há magistrados cuja trajetória demonstra dedicação exemplar. Produzem decisões fundamentadas com rigor, mantêm atualização constante, tratam partes e advogados com respeito, compreendem a realidade social que atravessa os processos. Esses profissionais existem e sustentam parte da credibilidade institucional. O problema que provoca revolta emerge quando a exceção virtuosa convive com padrões reiterados de distanciamento e privilégio.
A formação jurídica brasileira, em muitos casos, privilegia memorização normativa e treino para concursos altamente competitivos. O ingresso na carreira costuma exigir anos de estudo concentrado em legislação e jurisprudência. Esse modelo seleciona candidatos com capacidade de desempenho em provas específicas, mas não necessariamente avalia habilidades de gestão, empatia, liderança ou compreensão sociológica da realidade. Uma vez aprovados, muitos assumem varas com milhares de processos acumulados e impacto direto na vida de comunidades inteiras.
A estrutura remuneratória da magistratura também alimenta tensão social. Salários elevados, adicionais, benefícios e auxílios contrastam com a precariedade enfrentada por professores, enfermeiros e servidores de base. Quando categorias do serviço público reivindicam reajustes para recompor perdas inflacionárias, frequentemente encontram decisões judiciais restritivas que invocam responsabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, debates sobre vantagens internas do próprio Judiciário revelam resistência à limitação de benefícios. Essa assimetria produz percepção de corporativismo.
Casos emblemáticos reforçam essa imagem. Decisões que ignoram dados técnicos consolidados, sentenças posteriormente anuladas por falhas básicas de fundamentação, condutas públicas incompatíveis com a sobriedade esperada do cargo circulam amplamente. O Conselho Nacional de Justiça divulga periodicamente processos disciplinares envolvendo magistrados acusados de irregularidades administrativas ou condutas impróprias. Embora o percentual seja pequeno diante do total de juízes, cada episódio impacta a confiança coletiva.
A morosidade processual constitui outro foco de desgaste. Milhões de processos tramitam por anos sem solução definitiva. Empresas aguardam decisões que influenciam investimentos, trabalhadores esperam verbas rescisórias, vítimas de violência buscam respostas. Parte desse atraso decorre de estrutura insuficiente e complexidade legislativa. Outra parte relaciona-se à gestão interna e à cultura institucional. Quando o tempo judicial não dialoga com a urgência da vida real, instala-se sensação de indiferença.
A crítica, para ser intelectualmente honesta, precisa distinguir função de indivíduos. O Estado de Direito depende de um Judiciário forte e independente. Sem juízes protegidos contra pressões políticas e econômicas, direitos fundamentais tornam-se frágeis. A independência, contudo, não pode converter-se em isolamento. Transparência, avaliação periódica de desempenho, critérios claros para promoções e responsabilização efetiva por desvios fortalecem a instituição.
A indignação que se dirige à magistratura revela expectativa elevada. Quem julga precisa estar acima de suspeitas elementares e abaixo da arrogância institucional. A autoridade que decide sobre a liberdade alheia deve conviver com escrutínio rigoroso. O poder de interpretar a Constituição e as leis carrega obrigação proporcional de preparo contínuo.
O debate público sobre o Judiciário costuma oscilar entre reverência automática e hostilidade indiscriminada. Uma análise madura reconhece a complexidade do sistema e identifica pontos de aperfeiçoamento. Investimentos em formação humanística durante a carreira, ampliação de mecanismos de controle externo, simplificação processual e fortalecimento da cultura de prestação de contas podem aproximar a instituição da sociedade que ela serve.
A irritação que se transforma em repúdio se manifesta quando a distância entre autoridade e responsabilidade parece excessiva. Transformar essa energia em crítica estruturada, baseada em dados e propostas concretas, contribui mais para o aperfeiçoamento institucional do que a simples generalização. A magistratura brasileira exerce papel central na vida nacional. Justamente por isso, precisa estar aberta a questionamentos consistentes e reformas que a tornem mais eficiente, mais transparente e mais conectada à realidade social.


