Não adianta fazer CPI disso ou daquilo. Pode abrir mil CPIs. Nada vai adiantar. Todo mundo sabe disso. A experiência já ensinou. O país já viu esse filme vezes demais.
A CPI do Orçamento terminou em relatórios. O mensalão terminou em exceções. A Lava Jato terminou em disputa interna e esvaziamento. A CPI da Covid terminou em caixas de documentos. O padrão se repete. Investiga-se muito. Resolve-se pouco. O centro permanece intocado.
A situação se agravou a tal ponto que não há mais dúvida razoável. Os próprios poderes já admitiram, não em palavras, mas em atitudes concretas, que o objetivo não é corrigir nada. É sentar lá. Pensar em novas formas de concentrar poder. Blindar aliados. Administrar o tempo. O resto é encenação institucional.
Provas são rejeitadas. Diligências são negadas. Testemunhas estratégicas silenciam com respaldo jurídico. Processos perdem fôlego até deixarem de importar. Tudo dentro da forma. Tudo longe de qualquer consequência real. Não se trata de erro. Trata-se de funcionamento.
Falar em Estado, nesse contexto, soa quase abstrato. O cidadão não encontra o Estado quando precisa. Encontra filas. Encontra ausência. Encontra indiferença. Mas o Estado aparece inteiro quando é para cobrar, punir, controlar. A desigualdade não é acidente. É método antigo.
Ou o brasileiro vai para as ruas ou já era. Não como gesto heroico. Como último recurso histórico. Foi assim no fim da ditadura. Foi assim em 1992. Nunca foi bonito. Nunca foi organizado. Sempre foi resposta ao fechamento completo das vias institucionais.
Não existe mais Estado como referência comum. Existe um sistema operando para si mesmo. Quem ainda espera solução interna não está sendo prudente. Está adiando o inevitável. E o país inteiro já percebeu isso.


