Silêncio: o processo que mata a verdade

Há momentos em que a Justiça brasileira não falha por lentidão, mas por eficiência seletiva. Tudo acontece rápido demais quando o objetivo não é esclarecer, mas encerrar. Não vai dar em nada, dizem nas ruas, e a frase não nasce do pessimismo gratuito. Ela nasce da experiência acumulada de quem já viu esse roteiro antes.

O porteiro, testemunha-chave, transforma-se em silêncio oficial. Não um silêncio qualquer, mas um silêncio em papel timbrado, redigido com precisão jurídica, assinado por advogado, validado pelo sistema. Não viu, não ouviu, não sabe. O cotidiano que antes observava tudo agora não observa mais nada. A palavra viva é substituída por uma nota fria, burocraticamente limpa, moralmente estéril.

Antes mesmo de se declarar suspeita por amizade íntima com os pais dos acusados, a juíza já havia feito o trabalho necessário para garantir que nada avançasse. Provas rejeitadas, diligências negadas, apreensões barradas, celulares blindados. A investigação não foi conduzida. Foi administrada até a asfixia. Sufocada antes de respirar.

No Brasil, investigações não precisam ser encerradas oficialmente para morrer. Basta que se retirem os instrumentos que poderiam falar. O que podia testemunhar é calado. O que podia provar é apagado. O que podia contradizer a versão conveniente é descartado sob o argumento da formalidade. Tudo dentro da lei. Tudo longe da justiça.

Dados do próprio Conselho Nacional de Justiça mostram que a taxa de arquivamento de inquéritos cresce de forma significativa quando envolvem réus com alto poder econômico ou forte capital social. Não é acaso. É padrão. A engrenagem não emperra. Ela gira na direção correta para quem sempre soube onde colocar a mão.

Quando a verdade se torna inconveniente, o sistema recorre à sua solução mais antiga e mais covarde. Arquiva-se a consciência. Enterra-se a responsabilidade. Produz-se uma narrativa final que não precisa convencer, apenas encerrar. O processo deixa de ser instrumento de apuração e passa a ser ferramenta de esquecimento.

E então vem a frase definitiva, escrita com tinta suja de cinismo institucional. Conclusão oficial: Orelha se matou. Não importa o que o corpo dizia. Não importa o que as circunstâncias gritavam. Não importa o que foi impedido de ser investigado. A versão oficial não precisa dialogar com a realidade. Ela precisa apenas constar nos autos.

Essa não é uma falha isolada. É um método. Um modo de operar que se repete sempre que a verdade ameaça ultrapassar os muros do privilégio. O sistema não absolve apenas pessoas. Ele absolve estruturas, protege sobrenomes, conserva hierarquias.

Quando a Justiça escolhe não ver, não ouvir e não saber, ela não está sendo neutra. Está escolhendo um lado. E quase nunca é o lado de quem morreu sem defesa.

Por isso, quando dizem que não vai dar em nada, não é descrença. É diagnóstico. É leitura lúcida de um país onde processos são encerrados, mas feridas seguem abertas. Onde a verdade é enterrada com carimbo oficial, enquanto a memória insiste em sobreviver fora dos autos, nas ruas, nos protestos e na recusa coletiva de aceitar que o silêncio seja a última palavra.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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