Há um tipo de problema cotidiano que ninguém costuma nomear, mas todo mundo sente: gente ruim de serviço. Não é o erro ocasional, nem a falha humana — isso faz parte do trabalho e da condição humana. É o erro que se repete por desleixo, é a tarefa malfeita entregue como se fosse suficiente, é a desculpa automática antes mesmo da tentativa. É a negligência constante, a preguiça intelectual, a recusa em aprender algo básico que já deveria ter sido aprendido, a incapacidade de ouvir instruções simples, a incompetência deliberada nas razões do “jeito de ser” ou de “ninguém é perfeito”.
Ser ruim de serviço não é apenas produzir mal. É atrasar a vida dos outros de forma silenciosa e cumulativa. É a fila que não anda porque alguém não domina o próprio sistema, o documento devolvido três vezes porque ninguém se deu ao trabalho de conferir, o problema empurrado para o colega, para o setor seguinte, para “depois”. É transformar tarefas simples em obstáculos desnecessários, exigir paciência onde deveria haver responsabilidade, ocupar espaços sem cumprir sua função social mais básica: fazer o que precisa ser feito, com o mínimo de dignidade e atenção.
Vivemos tempos em que muitos reclamam do chefe, da empresa, do sistema. E, sim, há patrões ruins, ambientes tóxicos, estruturas injustas que esmagam gente competente todos os dias. Mas há algo que precede qualquer crítica legítima: o compromisso individual com o próprio trabalho. Estudar, aprender a se comunicar, tratar as pessoas com respeito, resolver problemas em vez de empurrá-los adiante, buscar excelência — nada disso é favor, nem heroísmo. É obrigação; o mínimo esperado de quem aceita, assume uma função e recebe por ela.
Ser competente não é elitismo. É ética. É compreender que o seu desempenho impacta diretamente a vida de alguém: o cliente que perde tempo, o colega que precisa refazer o que você não fez, o usuário que depende daquele serviço, o cidadão que confia na instituição. Quando você falha por descaso, alguém paga o preço. Às vezes em tempo, às vezes em dinheiro, às vezes em saúde emocional. Pequenas incompetências, quando somadas, viram grandes injustiças cotidianas.
Há também uma ilusão confortável: a de que permanecer ruim de serviço é uma forma de resistência, uma resposta ao sistema que explora. Não é. É autossabotagem. É fechar portas enquanto se reclama que não há saída. Quem se qualifica amplia escolhas. Quem aprende a fazer bem o que faz ganha autonomia, respeito e mobilidade. Até um patrão ruim se torna temporário quando você é bom o suficiente para ir embora — e quando seu trabalho fala por você.
O oposto disso é virar uma porta ineficiente: não abre caminhos, não protege, não cumpre função alguma. Apenas ocupa espaço. E espaço ocupado sem propósito apodrece. Apodrece as relações, o ambiente, a confiança coletiva. Gera cinismo, irritação e descrédito generalizado.
Logo, ser bom no que se faz não consiste em agradar chefes, bater metas ou vestir a camisa de empresa alguma. Significa não ser um peso morto na engrenagem da vida coletiva; entender que competência também é um ato de cuidado com o outro — e, sobretudo, consigo mesmo. Porque ninguém cresce sustentado pela própria mediocridade.


