Quando o amor não pede sobrenome

Há quem torça o nariz quando alguém se diz pai ou mãe de pet. A objeção costuma vir carregada de ironia, como se fosse preciso um manual oficial para legitimar vínculos. Mas talvez o incômodo não seja com a palavra — e sim com o afeto que ela carrega. Porque o amor, quando é real, costuma desorganizar hierarquias muito bem estabelecidas.

Conviver com um animal é experimentar uma forma de presença que não depende de discurso, promessa ou desempenho. O afeto não é condicionado ao humor do dia, à produtividade ou à capacidade de argumentar. Ele existe. Simples assim. Há algo profundamente desarmante em ser recebido todos os dias como se fosse a primeira vez. Não há cobrança, apenas reconhecimento. E isso diz muito sobre quem somos quando não precisamos provar nada.

O Scooby, meu cachorro, não sabe quem eu sou no mundo social, não conhece títulos nem biografias. Ele responde apenas àquilo que percebe: o tom da voz, o gesto, a constância. Essa relação, desprovida de encenação, acaba revelando algo incômodo — o quanto nos acostumamos a vínculos mediados por interesses e expectativas. Com um animal, não há espaço para personagens. Ou se é, ou não é.

Animais também ensinam por contraste. Mostram, com uma clareza silenciosa, que nem toda presença é segura. Há pessoas diante das quais eles se retraem, evitam, recusam. Não por julgamento moral elaborado, mas por uma sensibilidade que nós, adultos treinados para ignorar sinais, muitas vezes perdemos. Confiar nesse tipo de percepção é admitir que a razão não dá conta de tudo — e isso exige humildade.

Dizer que animais curam não é exagero poético, mas constatação prática. Eles não resolvem a vida, mas a tornam habitável. Acalmam, organizam o caos interno, criam rotina onde havia dispersão. Oferecem uma forma de amor que não pede explicação, apenas cuidado. E cuidar, no fim das contas, é um dos gestos mais concretos de responsabilidade que alguém pode assumir.

Quem sabe a pergunta não seja se existe pai de pet, mas por que ainda precisamos diminuir vínculos que não cabem nas classificações tradicionais. Em um mundo cada vez mais marcado pela frieza das relações e pela desconfiança generalizada, aprender a amar sem cálculo não deveria ser motivo de deboche. Deveria, no mínimo, nos fazer pensar sobre o que estamos chamando de amor — e sobre o quanto dele ainda somos capazes.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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