O convívio cotidiano no ensino superior tem um efeito pedagógico curioso: ele desmonta, pouco a pouco, a crença confortável de que títulos acadêmicos são sinônimo automático de inteligência. Basta circular pelos corredores, ler trabalhos, participar de bancas, orientar ou ser orientado, para perceber que o diploma, embora respeitável, não garante clareza de pensamento, rigor intelectual nem cuidado com a palavra.
Ultimamente, confesso, desenvolvi um critério estranho de consolo. Quando leio um texto ruim, cheio de tropeços, com frases que não fecham, concordâncias quebradas e uma pontuação que parece lançada à sorte, chego a pensar: ao menos isso não foi feito por inteligência artificial. Há ali um rastro humano — falho, descuidado, mas humano. E então surge a dúvida incômoda: devo me alegrar com textos ruins porque, pelo menos, indicam autoria?
O problema é que essa indulgência dura pouco. Porque não estamos falando de rascunhos apressados ou de exercícios de graduação. Estamos falando de trabalhos de doutorado. Textos que passaram por anos de pesquisa, orientações, qualificações, revisões e bancas. E ainda assim chegam ao leitor com erros básicos de sintaxe, falhas grosseiras de pontuação e deslizes de digitação que não resistiriam a uma leitura atenta de dez minutos.
Em Ciências da Linguagem e Sociais ao menos, isso virou praga. Não sei se nas Exatas o fenômeno se repete com a mesma intensidade, mas por aqui é impossível fingir surpresa. O texto revela um pensamento confuso, uma escrita negligenciada, uma relação utilitária com a linguagem — como se escrever fosse apenas preencher páginas, não construir sentido. E, ao final do processo, o autor recebe o título de Doutor. O papel muda. O texto não.Talvez o incômodo maior não seja o erro em si. Errar faz parte do trabalho intelectual. O que assusta é a naturalização do erro, a aceitação tácita de que escrever mal é um detalhe menor, um problema cosmético, algo que pode ser relevado em nome de gráficos, conceitos ou citações acumuladas. Como se o pensamento pudesse existir à parte da linguagem que o expressa.
A inteligência artificial, nesse cenário, funciona quase como um espelho cruel. Ela escreve “corretamente”. Organiza períodos. Ajusta concordâncias. Pontua com decência. E, ao fazer isso, escancara o desleixo humano que muitos preferem chamar de estilo ou pressa. Não é que a máquina pense melhor. É que, muitas vezes, o humano parou de se responsabilizar pelo que escreve.
O título acadêmico continua sendo importante. Ele sinaliza percurso, esforço, especialização. Mas talvez seja hora de lembrar algo básico: ele não pensa, não escreve e não revisa por ninguém. Sem cuidado com a palavra, sem compromisso com a clareza, sem respeito ao leitor, o título vira apenas isso — um adorno institucional. E inteligência, essa coisa mais rara, continua não sendo concedida em cerimônia alguma.


