Crítica a uma morte anunciada

No ultimo dia do ano de 2025 recebi uma espécie de presente de natal atrasado: um pequeno livro: Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscita-la.

Resolvi atacar o livro em uma sentada só, ja no dia primeiro de janeiro. 138 páginas? Um dia de leitura, por que não? Uma boa forma de começar o ano.

Esta não é minha primeira leitura de Jesse Souza. Já enfrentei o clássico A elite do atraso e o polêmico O pobre de direita. E, assim como nos outros dois livros, minhas discordâncias foram bem maiores que as concordãncias. Ainda assim, é sempre saudável confrontar as próprias ideias com um discurso organizado, sofisticado e divergente.

Minhas divergências, desta vez, já começaram na contracapa.

Não que a frase esteja errada. De fato a dominação simbólica é parte inequívoca e indissociável do capitalismo. Mas meu primeiro questionamento foi: se a análise se dará no campo simbólico, por que escolher como símbolo central a morte da esquerda? Seria uma escolha sábia estender como metáfora o cadáver da esquerda e invocar a necessidade de um milagre messiânico, a sua ressurreição? Estamos assim tão desesperados?

Sei dos riscos que enfretamos com o neofascismo no Brasil e no mundo. Mas diante das vitórias recentes, parciais, mas essenciais, seria prudente nos colocarmos como sepultos?

Então abri o livro e comecei a ler. E aqui vai minha crítica a uma morte anunciada (Garcia Marques me perdoe pelo trocadilho).

A tese central

Jessé Souza, apoiado principalmente em Habermas, estabelece a seguinte tese: os movimentos dos trabalhadores confrontaram o acapitalismo desde 1830 até 1960 apoiados no socialismo, mas carregou durante este tempo um problema grave. A crítica marxista não teria conseguido superar o produtivismo capitalista. Continuaria vendo no aumento da técnica e da produtividade o segredo para um mundo mais justo, reduzindo o homem à sua atividade produtiva. Pior: essa crítica permaneceria presa a uma espécie de ingenuidade positivista (termo meu, não de Jessé) segundo a qual o mero progresso técnico das forças produtivas e as contradições internas do capitalismo levariam, quase automaticamente, à sua superação.

Contudo, com a implementação do Estado de bem-estar social na Europa e nos EUA, a partir do pós-guerra, uma geração de jovens passou a ter acesso a uma educação livre, infensa ao poder financeiro (termo de Jessé, não meu). Isso permitiu o questionamento do produtivismo e a proposição de uma nova sociedade. E o debate ocorreu não fora do capitalismo, mas dentro do próprio espaço público da pólis capitalista.

Aqui surge um dos primeiros erros de Jessé. Ele lê Marx pelas lentes de Habermas e, com isso, perde Marx. Ao submeter Marx a uma teoria normativa da comunicação, a crítica da exploração é convertida em um problema de reconhecimento e legitimação, e não de apropriação material.

É verdade que a análise marxiana foca o sistema produtivo e concebe a luta de classes como motor da história. Mas, de forma alguma, a crítica socialista ou marxista reduz o homem à sua atividade produtiva. Pelo contrário: a tensão entre capital e trabalho, desde o século XIX, sempre esteve ligada à luta por uma vida digna fora do trabalho.

Também não há, no pensamento marxiano, (ainda que apareça em certas correntes marxistas) a ideia de que o progresso técnico garantiria a vitória inevitável do proletariado. A visão comunista sempre foi a de que as contradições internas do capitalismo abririam espaços de luta e disputa, e que o avanço técnico permitiria, mas jamais garantiria, a redução da necessidade do trabalho. O único agente revolucionário sempre foi o trabalhador organizado. A técnica nunca substituiria a luta de classes.

A revolução expressiva

Neste contexto, o autor propõe que os movimentos pelos direitos civis, a contracultura e toda a efervecência cultural dos anos 1960-70 teriam sido o maior e mais radical enfrentamento ao capitalismo já feito: A revolução expressiva.

O principal mérito da contracultura, segundo o autor, teria sido o rompimento com a visão produtivista do homem. A oposição ao capitalismo deixaria de se restringir ao trabalho e passaria a abarcar todas as esferas da vida. Assim, a nova sociedade não seria centrada no que o homem pode produzir, mas nas grandes questões humanas: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. A força revolucionária emergiria do melhor do espírito humano: criatividade, busca pelo novo, solidariedade, senso de justiça.

É aqui que o idealismo do autor começa a se tornar evidente. Não se trata de um idealismo ingênuo ou utópico, mas ainda assim da crença de que a principal luta revolucionária ocorre no debate cultural, na esfera pública democrática, no confronto de ideias. As transformações materiais e econômicas cedem lugar aos valores, afetos e desejos como motores da mudança.

Em outras palavras, Jessé permanece preso à ideia de que a luta revolucionária é por liberdade, igualdade e fraternidade, entendidas como valores éticos. Mas a liberdade não é uma abstração moral: é autonomia material sobre a própria vida.

O autor ainda observa, de passagem, que fora dos EUA e da Europa a chamada Revolução Expressiva jamais se efetivou, tendo sido brutalmente reprimida por ditaduras frequentemente sustentadas pelos mesmos países que, no centro do império, pregavam solidariedade enquanto exploravam nossas veias abertas.

No Brasil, é verdade que uma geração de estudantes e artistas tentou emular a contracultura do capitalismo central. Mas também é verdade que essa luta foi simbólica, valente e heroica, e, ainda assim, ineficiente para alterar o sistema.

Mesmo nos países onde a Revolução Expressiva teve maior impacto, como EUA e Inglaterra, não produziu mudanças estruturais além daquelas já prometidas, e parcialmente cumpridas, pelo Estado de bem-estar social. A suposta revolução anticapitalista mais radical da história promoveu profundas mudanças culturais, mas foi incapaz de criar um sistema alternativo de produção ou mesmo uma utopia social concreta que fosse além de um sonho artístico subjetivo.


Apesar de classificada por Jessé como a mais radical revolução anticapitalista, a contracultura é, na prática, um exemplo paradigmático do que Gramsci chamou de Revolução Passiva: mudanças profundas nos costumes e nos discursos que não tocam as estruturas de poder, não ameaçam as elites nem subvertem o sistema.

O socialismo real pode nos assustar, e até nos assombrar, mas segue sendo a única construção concreta de oposição ao capitalismo. Ao contrário da contracultura, nunca foi plenamente absorvido ou ressignificado. Pelo contrário, permanece como o maior desafio imposto ao imperialismo estadunidense. Saudações chinesas.

A vingança dos super-ricos

Jessé argumenta que, a partir dos anos 1980, a contracultura passa a ser absorvida pelo avanço do neoliberalismo: a geração yuppie, a cultura do Vale do Silício e o progressismo de terceira via de Clinton e Obama. Valores como individualidade, criatividade, liberdade, inovação e felicidade deixam de ser forças de contestação e passam a integrar estratégias de competição corporativa.

O hippie vira yuppie. Depois, Steve Jobs. Obama. O toyotismo se moderniza: vestir a camisa da empresa torna-se expressão criativa.

Mais uma vez, a análise não está errada, mas é incompleta. Não se compreende a formação do consenso neoliberal sem considerar a crise do petróleo dos anos 1970, o fim do padrão ouro e o contexto final da Guerra Fria. Não se trata apenas de um deslocamento simbólico no debate público, mas de uma reconfiguração profunda do capitalismo, cada vez mais especulativo.

É nesse momento histórico que ocorre a verdadeira morte da esquerda: não pela revolta do pobre de direita humilhado, mas pela queda do Muro de Berlim. O colapso do bloco soviético significou a perda da principal referência anticapitalista do século XX. A ilusão do “fim da história” foi construída sobre o cadáver simbólico da esquerda.

Uma nova forma de dominação social


Jessé segue argumentando que o fracasso econômico do neoliberalismo progressista gerou um descompasso entre a promessa de integração social e a brutal concentração de renda, intensificando a humilhação do trabalhador e da classe média, historicamente marcados pela exclusão. Surge aí a figura do pobre de direita.

Esse trabalhador, ressentido com o pouco que tinha e perdeu, direciona sua revolta contra os valores de inclusão e universalidade que o liberalismo fingiu sustentar. Na ausência de um debate que identifique os verdadeiros inimigos, ele volta suas armas contra aqueles valorizados pela Revolução Expressiva: mulheres, negros, população LGBTQIAPN+.

Aqui está o núcleo do arcabouço teórico de Jessé: a humilhação como motor político da insatisfação. E é também aqui que reside minha maior discordância. A realidade não é aquilo que sentimos sobre ela. Ao tratar a humilhação como causa primeira da revolta, Jessé obscurece a raiz da questão: a exploração.

E com este erro idealista, ao colocar a superestrutura cultural e simbólica como alicerce da sociedade, ele relativiza e menospreza a infraestrutura econômica, trabalhista. Se a esquerda é a busca de superação do capitalismo, então deve ter como base a destruição dos alicerces capitalistas. E estes são os meios de produção e as relações de trabalho, e não os simbolos e a esfera publica de debate.
 

Para acabar com a humilhação, é preciso acabar com a exploração. Promover pertencimento, empoderamento e reconhecimento sem enfrentar a mais-valia e a alienação do trabalho é como colocar um band-aid em uma fratura.

Não se trata de uma análise errada, mas incompleta. Falta radicalidade.

E é por este idealismo que Jessé sequer entende plenamente o fenômeno das redes sociais como mecanismo de fragmentação do debate. Não se trata somente da dinâmica das redes oferecer um falso pertencimento e uma identidade de grupo aos humilhados. Mas principalmente de mais um passo na generalização da forma mercadoria promovida pelo capitalismo.

Os algoritmos premiam a revolta e o ódio não por que são afetos poderosos, mas para construir uma forma de mercantilizar até mesmo os preconceitos. Lembremos que as redes sociais não existem como um serviço para nós. Nós somos o produto. O consumidor das redes sociais são as empresas e conglomerados que compram os dados. E usam estes dados, para nos convencer que queremos o que eles querem que desejemos.

Não é apenas a manipulação do ódio. É transformar o ódio em mercadoria.
 

O fracasso da Revolução Rosa não é a morte da esquerda

No capítulo final, Jessé responde à pergunta-título: sim, a esquerda morreu. Morreu porque, segundo ele, a principal esquerda brasileira, representada pelo PT e por Lula, nunca ofereceu uma ideologia totalizante capaz de atender à necessidade de reconhecimento do trabalhador humilhado.

Esse diagnóstico dialoga parcialmente com o que também defendo: a esquerda contemporânea carece de utopia. Após vencer cinco das últimas seis eleições presidenciais, tornou-se uma vitrine de preservação institucional. A defesa da democracia soa, para muitos, como manutenção da ordem, e não como revolução.

Mas é preciso lembrar que o PT não nasce sem horizonte transformador. Surge do movimento sindical em meio à ditadura e carrega, até a Carta ao Povo Brasileiro, um projeto de mudança profunda. Sua domesticação não foi uma escolha isolada, mas parte de uma conjuntura continental pós-Guerra Fria.

E toda a América do Sul viu líderes radicais, alguns revolucionarios, alguns até guerrilheiros, se democratizarem e assim chegarem ao poder. A famosa Revolução Rosa que produziu Lula, Mojica, Chaves, Ivo Morales entre outros.

Isso não foi uma opção discursiva, mas um momento geopolítico que apaziguou as veias abertas da América Latina com versões precárias de Estados de bem-estar social. Resultado não da falta de horizonte político, mas de mais uma dinâmica imperialista no pós-Guerra Fria.

A ressurreição

Jessé propõe ressuscitar a esquerda a partir de um ponto sólido: compreender o Brasil a partir da escravidão negra como elemento constitutivo. Ele identifica um racismo escravocrata inicial, posteriormente transformado em racismo cultural, leitura próxima do conceito de racismo estrutural.

O que falta é compreender por que o racismo é estruturante em quase todo o continente americano. Não se trata apenas de humilhação histórica, mas da principal relação de trabalho por três séculos. Reconhecer isso não é produtivismo; é apontar causas materiais.

Falta também articular essa leitura a um projeto de transformação. Identificar inimigos não basta. É preciso oferecer instrumentos de mudança. Caso contrário, o ódio legítimo se converte em mais uma versão ineficiente do “contra tudo isso que está aí”.

Como o trabalhador pobre e humilhado se libertará? Pelo debate racional na esfera pública? Pela comunicação argumentativa? Me desculpe, mas senhores não soltam seus escravos porque perderam um debate.

Falta materialidade e sobra idealismo em grande parte do livro. Há uma defesa da revolução passiva como radicalidade.

Mas há um trecho que eu devo dizer que concordo quase plenamente com Jessé: Nesse contexto, a pregação comunista e a crítica ao imperialismo precisamente por ser oposta ao ideario elitista, passa a ter, também, chances praticais reais de representar a “esquerda” em um futuro próximo.

Essa ressurreição, aliás, já está em curso. Pela primeira vez desde a redemocratização, o debate público brasileiro aborda temas como redução da jornada de trabalho, taxação dos super-ricos, soberania nacional e alinhamento com o Sul Global.

E isso não ocorre por um espaço público iluminado, nem por universitários de classe média, mas por uma realidade material: o desafio à hegemonia dos EUA. Produzido não por debates racionais, mas por uma revolução ocorrida na China há 80 anos.

Isso não implica idealizar a experiência chinesa, mas reconhecer um fato histórico elementar: deslocamentos reais de poder material produzem mais efeitos que consensos discursivos.

Somos o Brasil, não a China. Precisamos de soluções brasileiras e latino-americanas, mas soluções verdadeiramente anticapitalistas, não revoluções passivas conduzidas por artistas e universitários brancos de classe média.

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