O Cinema-verdade encontra o Brasil Paralelo

Há mais tempo do que gostaria de admitir, não ia ao cinema. O que era um hábito mais que semanal nos anos anteriores à pandemia transformou-se, infelizmente, em um prazer raro. Uma daquelas mudanças silenciosas que períodos turbulentos nos impõem sem pedir autorização.

Hoje, voltei ao Cine Brasília, a sala mais tradicional do Distrito Federal. Um cinema público, com a diferença essencial de não só exibir um acervo que dificilmente chegaria às salas de shopping, mas também de manter preços bem mais acessíveis, e insistir, teimosamente, que cinema ainda pode ser experiência coletiva, e não só consumo individual.

Vi que passaria No Céu da Pátria Neste Instante, documentário de Sandra Kogut sobre as eleições de 2022 e seus desdobramentos, culminando na Intentona Bolsonarista de 8 de janeiro de 2023. Pensei: por que não? Fui despreparado. E o filme me deixou aturdido.

Sandra Kogut opta por uma estética de cinema-verdade: câmera aberta, interação direta com a cena, ausência de narrador, nenhuma estrutura explicativa confortável. A câmera simplesmente está ali. E o que ela encontra são apoiadores de Bolsonaro, eleitores de Lula, mesários, fiscais, servidores eleitorais, pessoas comuns atravessadas por um processo político que extrapolou qualquer normalidade democrática. Tudo filmado de forma crua, dura, sem mediação pedagógica.

Logo no início, antes mesmo da primeira imagem, ouvimos uma voz perguntar se a diretora era “de esquerda ou do bem”. A frase seguinte é quase automática: “No cenário atual, ou você apoia Bolsonaro, ou está contra o Brasil.” Um “Brasil: ame-o ou deixe-o” reciclado em chave digital, paranoica e ressentida.

Mas o que me aturdiu não foram os absurdos bolsonaristas em si, até porque, infelizmente, nos acostumamos a eles. Foi ver, três anos depois, um retrato tão cru de uma realidade tão recente, mas com um olhar externo. Enquanto as imagens se desenrolavam na tela, contando a história de pessoas comuns em um cenário de tensão, violência e desespero, a ficha foi caindo: eu vivi aquilo. No meio do caos e da luta, não tive tempo de processar aqueles meses de pânico cotidiano.

Há anos em que nada acontece, e dias que mudam décadas. As eleições de 2022 não foram apenas um evento eleitoral: foram meses de intensidade política e emocional absurdas, como nenhuma outra eleição que já vivi. O filme não reconstitui esse período, o reinsere. E essa diferença é brutal.

Sentado na poltrona, assistindo à história que eu mesmo vivi, mas repetida em outras pessoas, pude enxergar de fora o horror no qual o país mergulhou. Um horror que ainda não foi absorvido, muito menos purgado. Com isto tornei-me testemunha de mim mesmo. E creio que não fui o único: a pequena plateia reagia como eu.

Quase sempre sou silencioso no cinema, mas ali foi impossível, pois a carga emocional era grande demais. Impossível não reagir, comentar, protestar. Uma catarse rara e incomum para um documentário.

A escolha pelo cinema-verdade foi particularmente feliz para criar esse clima. Não se trata de uma recontagem ou análise acadêmica: é uma reinserção, um contato direto com cicatrizes que ainda não fecharam. O filme não oferece distância segura e sim obriga o espectador a voltar para dentro do acontecimento.

Mas não se iluda, apesar da opção pelo cinema-verdade, ou talvez por causa dela, o filme de Kogut nunca pretende ser neutro. A diretora não narra nem discursa, mas também não se omite, apenas deixa a câmera mostrar. E o que se vê é um país fraturado, vivendo realidades inconciliáveis, preso numa lógica de pós-verdade já consolidada.

O final do filme é agridoce. Vivemos em dois Brasis, talvez três. Um deles habitado por nós, da esquerda; outro pelo bolsonarismo; e um terceiro, amorfo, despolitizado, que oscila entre cansaço e indiferença. Esses Brasis raramente se tocam, mas 2026 se aproxima, e um novo contato será inevitável. E novamente não será harmonioso.

No Céu da Pátria Neste Instante é mais do que um documentário necessário. É um registro incômodo de um trauma ainda em curso. Serve hoje como alerta, não para uma batalha futura abstrata, mas para o risco concreto da repetição. E espero que sirva amanhã como testemunho, para que quem não viveu aquele período entenda que o terror político não começa com tanques nas ruas, mas com frases ditas com absoluta convicção diante de uma câmera ligada.

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