17.2 C
São Paulo
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

De Peito Colado no Palco: Meu Testemunho dos 33 Anos de Gabriel O Pensador

Na noite de 3 de dezembro, na Fundição Progresso, Gabriel O Pensador não fez apenas a gravação de um acústico comemorando 33 anos de carreira: ergueu um altar laico para a inteligência em forma de rima, e eu estava ali, de corpo presente, quase encostando no palco, sentindo o grave bater no peito como se cada batida fosse uma lembrança de tudo o que a sua música já fez pensar, rir, chorar e tomar partido. Era aquele tipo de noite em que a gente sabe, enquanto vive, que está guardando memória para o resto da vida.

Desde a abertura com “Até Quando?”, o clima era de manifesto coletivo e não de simples aquecimento de plateia: cantada em coro, soava como uma pergunta jogada de novo na cara do Brasil, só que agora com três décadas de experiência acumulada em cada verso, e uma casa lotada respondendo com a mesma indignação de antes, temperada com a maturidade de quem já viu o tempo passar sem as mudanças prometidas. “Retrato de um Playboy – Parte 2” veio como aquele espelho incômodo que insiste em lembrar que o playboy não é um personagem dos anos 90, mas um tipo social reciclado, atualizado, ainda desfilando impune pelos camarotes da vida, e ali, no meio da Lapa, era como se o retrato ganhasse cor, som e CPF. Em “2345meia78”, a plateia virou um coral preciso, provando que, por mais que o relógio avance, há refrões que não envelhecem, porque continuam descrevendo com exatidão o corre, o aperto e a matemática quebrada da vida real.

“Astronauta” veio primeiro com Lulu Santos ao lado de Gabriel, ganhando contornos sensíveis no acústico, como um pedido de fôlego coletivo num país que asfixia sonhos. Em seguida, “Cachimbo da Paz 2”, com o peso recente de prêmio, provou que ele ainda escreve o presente sem perder a precisão poética. Logo depois, “Cachimbo da Paz” explodiu com Lulu Santos, Gabriel, Xamã e vários índios convidados, num pacto renovado entre gerações, cada palavra pousando com cuidado no ar antes de ser engolida pela emoção do público, culminando no grito uníssono de palco e plateia “Aldeia resiste”, um brado que ecoou como hino de resistência ancestral. “Festa da Música Tupiniquim” transformou o palco em vitrine generosa onde rap, rock, reggae, pop e MPB se abraçavam numa celebração coletiva.

“Astronauta” ganhou contornos ainda mais sensíveis naquele formato: era como se cada um ali, espremido na Fundição, estivesse tentando achar o seu próprio oxigênio num país que insiste em asfixiar sonhos, e a canção virasse um pedido de fôlego coletivo. “Solitário Surfista” trouxe a sensação de deslocamento de quem tenta se equilibrar nas ondas de um cotidiano caótico, mas, naquela noite, a solidão era suspensa pela comunhão de vozes, como se ninguém surfasse sozinho enquanto o Pensador pautasse a maré.

Antes de “Linhas Tortas”, Gabriel compartilhou com a plateia uma reflexão potente sobre o verdadeiro valor da vida, que está no uso da inteligência e não em bens materiais como joias, carros ou dinheiro. Prestou homenagem aos professores, aqueles que cultivam essa sabedoria fundamental e transformam o conhecimento em força para a vida. Esse momento de reconhecimento e sensibilidade abriu caminho para a música, que naquele instante soou como um hino para todos que aprenderam, nas suas próprias trajetórias tortuosas, que a inteligência e a reflexão são as verdadeiras bússolas para superar os desafios. “Pra Onde Vai” entrou para compor esse mosaico de sentimentos contraditórios e esperanças murchas, mas sempre renascendo.

“Pátria que me Pariu” incendiou o ambiente com a combinação rara de lucidez e fúria, reforçada por Mano Brown cantando junto e elevando o hino à enésima potência política, fazendo o rap ecoar como ato de fé crítica num país acostumado a normalizar o absurdo. “Racismo é Burrice” (Lavagem Cerebral) teve a voz forte de MV Bill junto com Gabriel, na pegada incisiva e consciente, reforçando que o combate ao preconceito segue vivo e urgente. “Palavras Repetidas” foi um momento coletivo, um cântico de prece laica sobre a nossa incapacidade crônica de aprender com nossos erros.

Quando “Matei o Presidente 2” ecoou, o choque de sempre apareceu, mas agora temperado por um senso histórico de quem viu a polêmica virar ferramenta clássica de crítica política, não mera provocação vazia. “Pega Ladrão”, cantada com o irmão de Gabriel, ganhou um sabor íntimo, denunciando a roubalheira institucional com força familiar. Em “FDP”, o irmão continuou no palco para uma catarse coletiva, um desabafo cru em que a raiva se faz som e voz.

“Muito Orgulho, Meu Pai” trouxe o lado mais íntimo e afetivo do show, com lágrimas silenciosas na plateia e o filho de Gabriel entrando no palco no fim da música, em um gesto emocionado que uniu gerações, parentesco e história em um rito de passagem vivo. “Zóio de Lula”, homenagem a Charlie Brown Jr., foi outro momento chave, um abraço a uma geração de guitarras e saudade, com a plateia unida em uma corrente de memória afetiva.

A participação de Cidade Negra foi memorável, principalmente na interpretação da música “Lilás”, de Djavan, numa fusão de reggae e MPB que trouxe equilíbrio e beleza à noite. O show foi enriquecido ainda pela presença de Os Garotim, Ventania e Jota Pê. O clímax veio ao fim quando Gabriel repetiu “Solitário Surfista”, que já havia sido tocada mais cedo, chamando Jorge Ben Jor ao palco para cantar junto, uma surpresa absoluta que nos pegou de guarda baixa, pois todos pensavam que ele não estaria presente, para delírio geral e fechando um ciclo histórico em que a música brasileira se cumprimentava com groove, sorriso e energia transbordante.

Ao fim, a sensação irrepetível era a confirmação de que, 33 anos após seu início, Gabriel O Pensador segue fazendo o que sempre prometeu: emocionar, conscientizar e provocar reflexão, enquanto um público inteiro, ali perto do palco, vivendo cada instante, mostrava que pensar ainda é verbo conjugado no presente

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol