A hora de dormir e as histórias de mamãe

Ouvia, quando criança, diversas histórias que minha mãe me contava antes de dormir. Esses momentos são excelentes para meninos e meninas – além de ser uma boa forma de literacia familiar, diverte-nos bastante e aguça nossa imaginação infantil. Havia uma coleção, em específico, que me cativou. Era uma Bíblia Sagrada ilustrada que ela lia para mim toda noite antes de pegar no sono – de uma revista protestante que assinamos na época. Outra também era uma invenção da mente dela: a história de Napoleão. Não era o Bonaparte, mas um garoto como eu – que brincava e se divertia com os colegas. Eu não era de muitos amigos, nem de brincar na rua ou me divertir em bandos. Era mais solitário e tímido, com cara de poucos amigos mesmo. Alegrava-me ouvir a história de “Napoleão em…” de minha mãe. Atiçando a curiosidade de vocês leitores, contarei um pouco a respeito de um momento íntimo como minha escrita de minha tenra infância. 

Eu me lembro como se fosse ontem das histórias bíblicas. Tudo começa com a criação do mundo: Deus dizendo “Faça-se a luz!” e o mundo se iluminando. Naquele momento, o meu mundo se iluminava com a luz da história que minha mãe me contava. Era um clarão imenso que luzia em minha mente fértil e infantil – como a terra molhada após um dia chuvoso, bom para ficar em casa lendo livros. Depois, Deus criou a fauna e a flora e, por fim, os seres humanos – Adão e Eva. Não vou me alongar nas histórias da Bíblia, leitor. Sugiro que leia o livro Sagrado para que compreenda melhor as referências, sob pena de eu tomar muito o seu tempo nesta breve crônica memorialista.  

Enfim, minha mente se expandia nesses momentos em que minha mãe se tornava uma contadora de histórias como a Velha Totonha do Menino de Engenho. Como nesta obra, todas as narrativas para mim eram mágicas. Transformava-me no Carlinhos ouvindo as histórias da Velha Totonha – que nesse momento aparecia com uma imagem maternal.  

Semelhante a Deus, eu descansava de minha rotina de colégio à noite ouvindo as histórias, mas Ele apenas no 7º dia – num domingo. A contadora de histórias também, após um dia exaustivo de trabalho. Como o Criador, mamãe inventava um mundo fantástico para mim nas noites de contação de histórias. Então, posso dizer que não tinha o horário vago da noite para o repouso. 

Também havia as histórias do pequeno Napoleão. Se não me engano, ele tinha a minha idade – por volta dos 8 anos de idade – e suas aventuras eram infantis como as minhas. Brincar de pique-esconde na rua, pique-pega, jogar futebol e nadar no clube próximo de casa. Encantava-me a história napoleônica. Mas não se engane que não é o personagem do século XIX, que construiu um império após a Revolução Francesa e se coroou imperador. Pode ser que seja um reino grande como o dele, contudo é um fantástico e mágico que mamãe incutia em minha imaginação – um império cotidiano e de criança. Gostava muito da semelhança entre o personagem e eu – que acabava me aproximando da narrativa e me imaginava em seu lugar, brincando com os amigos. No entanto, eu já disse que não era de amizades? Mas as amizades do menino fictício me faziam sentir o que é essa relação, mesmo não tendo muitas. 

Sinto saudades dessa época. Era um tempo em que eu não tinha preocupações da vida de jovem-adulto. Bons tempos que não retornam, cuja única preocupação era ir à escola e voltar para casa, em seguida, aguardar ansiosamente a hora de dormir para que ouvisse as histórias de minha mãe. É uma reminiscência prazerosa, um deleite que ecoa por minha memória e posso ouvir de longe as breves narrativas maternas da mais tenra infância. 

Erick Labanca Garcia
Erick Labanca
Graduando em Direito, estagiário da Defensoria Pública de Minas Gerais e escritor independente de crônicas.

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