A origem do mal em Santo Agostinho

Introdução

Por que o mal existe se Deus é bom e criou todas as coisas igualmente boas? Afinal, se tudo vem da bondade divina, não deveria o mal existir, certo? Santo Agostinho de Hipona explicou essa questão em sua obra O Livre Arbítrio. Então, explicar-se-á a questão da existência do mal frente ao bem utilizando a doutrina católica e a filosofia agostiniana.


Deus e a origem do mal

Em um primeiro momento, é válido analisar o que é Deus e o que é o mal. Deus, apesar de seus mistérios majoritariamente serem ocultos aos seres humanos, É (Ser). Assim, Ele é perfeito, imutável e uno.

Deus, portanto, por sua bondade, misericórdia, imutabilidade e eternidade criou o mundo “do nada”. Como, se “do nada, nada vem”? Santo Agostinho, em sua obra mencionada, diz que Deus não é potência, pois esta é o vir-a-ser algo, ou seja, ainda não é. Evidente que o vir-a-ser é o movimento, o devir, e Deus é eterno e imutável, porque Deus É. Portanto, está fora do tempo e do espaço, visto que os criou. Assim, Deus subsiste sempre, fora da realidade conhecida pelos humanos. Deus criou o mundo de forma boa. Assim, podemos concluir que Deus é a causa primeira de tudo, visto que Ele É, estando em tudo, mas subsiste per se, estando fora do mundo, que foi criado por Ele e é bom, como toda a sua obra.

Contudo, o mal não é como Deus, pois Ele criou coisas boas. Pois, se admitirmos que o mal É, então é passível questionar se Deus criou o mal. Isso, afinal, é contraditório teologicamente e filosoficamente, pois Deus, causa de tudo e o próprio Ser, não criou nada mau e nada existe fora dEle. Por conseguinte, Santo Agostinho afirma que o mal é a privação do bem, ou seja, a ausência do que é bom.

Por fim, conclui-se que o mal é a privação daquilo que é bom, pois Deus criou tudo sumamente como bom, sendo a causa primeira de tudo, pois Ele é (Ser), enquanto o mal não-é. Vê-se, evidentemente, que Deus É no sentido ontológico, assim como o mal não-é, no mesmo sentido – ou seja: Deus é essência (substância), enquanto o mal não tem isso.


O livre arbítrio, o ser humano e a vontade humana

Deus, também, criou o livre arbítrio que é a faculdade do homem, as escolhas que ele pode tomar em sua existência. O homem é livre para tomar suas próprias decisões, sendo tal dádiva dada por Ele.

O livre arbítrio não é incompatível com Deus, porque ele deu ao ser humano a referida faculdade a fim de que pudesse segui-lo espontaneamente. Se não houvesse a escolha do ser humano, ter-se-ia este como um autômato, ou melhor, um robô sem vontade alguma.

Ademais, Deus é presciente, no sentido de ver o futuro e a vontade do ser humano. Ora, isso não é incompatível com a presciência divina, tendo em vista que Deus pode prever o que o homem fará, no entanto, quem ordenada a vontade humana é o próprio homem. Portanto, Deus é presciente, mas quem ordena a vontade humana é o próprio ser humano.

A vontade, dessa forma, orienta o ser humano. Quando ela está ordenada, chega-se a Deus, pois se segue o caminho do Senhor, conforme as virtudes cardeais. Todavia, quando está desordenada, segue-se a carne, o mal, pela falta de ordenação da vontade humana. Então, a má ordenação das vontades leva o homem a pecar e a se afastar dEle, sendo punido pelo Criador justamente.


Conclusão

Podemos concluir que Deus criou tudo “do nada”, pois Ele é perfeito, eterno e imutável. Portanto, Ele é a causa primeira de tudo o que é corpóreo; Ele É (Ser), enquanto o mal não-é (ausência do bem ou privação do bem) porque que Ele fez tudo bom; o livre arbítrio é criação dEle, pois dá a liberdade para o ser humano escolhê-lo ao invés do mal mediante a vontade humana, a fé e a razão; a falta de ordenação das vontades humanas para Deus é a queda do homem para o pecado e para a carne.

Erick Labanca Garcia
Erick Labanca
Graduando em Direito, estagiário da Defensoria Pública de Minas Gerais e escritor independente de crônicas.

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