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sábado, 15 de junho de 2024

O ofício de viver de um clássico mestre do tempo

A lei moral serve para não fazermos mal a nós próprios, e não para evitar que os outros sofram. A caridade pode, apenas, dizer-nos o mal que fizemos ao agirmos segundo o nosso dever. Isto pode obsevar-se não só nos casos de amor, mas em toda a vida. Mas seria um imenso ideial: perguntar sempre, incansàvelmente, a cada um, que coisa o fere, lhe falta, o tortura, e compensar, beijar, reacender.

Mas cada um quer dizer todos, e quer dizer sempre, e não se pode. Não se pode, especialmente porque um, pelo menos, não teria essa compensação e esse beijo, e esse alguém somos nós. Porque uma coisa é certa: ver gozar, mesmo por obra nossa, não basta para nos dar a paz. Exemplo: as mulheres insatisfeitas.

  Parece uma mistura de sagrado d profano, mas não é.

A vida começa no corpo.

Escrevo: * * *, tem piedade. E depois?

Nunca devias tomar a sério as coisas que não dependem apenas de ti. Como o amor, a amizade e a glória.

E as que dependem apenas de ti, importa assim tanto que as tomes a sério? Quem sabe? Porque, se estamos sós, não há quem o saiba. Até o <<eu>> desaparece. Cada vez melhor.

Por que esquecemos os mortos? Porque já não têm préstimo.

Esquecemos, repudiamos uma pessoa triste ou doente, em virtude da sua inutilidade psíquica ou física.

Ninguém se abandorá a ti, se não vir nisso algum proveito.

E tu? Creio ter-me abandonado uma vez, desinteressadamente. Não devo, portanto, chorar por ter perdido o objecto daquele abandono. Já não seria desinteressado, nesse caso.

    No entanto, vendo quanto se sofre, o sacrifício é antinatural. Ou superior às minhas forças. E chorar é ceder ao mundo, é reconhecer que se procurava algum proveito. Há alguém que renuncie, podendo ter? A caridade não é outra coisa que o ideal da impotência.

 Basta de virtuosa indignação! Se tivesse tido dentes e habilidade, teria apanhado a presa.

Mas isto não impede que a cruz do desiludido, do falido, do vencido – eu- seja atroz de suportar. Afinal de contas, o mais famoso dos crucificados era Deus: nem desiludido, nem falido, nem vencido. No entanto, apesar de todo o seu poder, gritou <<Eli>>, mas depois dominou-se e triunfou, e já o sabia de antemão. A este preço, quem não queriria ser crucificado?

 Há tantos que morreram desesperados. E esses sofreram mais do que ser crucificado?

  Mas a grande, e tremenda verdade é está: Sofrer, para nada serve.

Todos oa homens têm um cancro que os rói, um excremento quotidiano, um mal que vem periòdicamente: a insatisfação; o ponto de encontro entre o seu ser real, esquelético, e a infinita complexidade da vida. E todos acabam por se aperceber diss, mais cedo ou mais tarde. Será preciso procurar conhecer, imaginar, a lenta tomada de consciência, ou a intuição fulminante de cada um. Quase todos – parece – redescobrem na infância os sinais do hororr adulto. Procurar conhecer esse viveiro de se sentirem prefigurados nos gestos e palavras irreparáveis da infância. Os <<Fioretti>> do Diabo. Contemplar sem <<Pose>> este horror: O que foi, será.

In, Susatel – Sentindo-se a celebrar C.Pavese

Copyrighted

Autoria:

Susatel

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