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domingo, 26 de junho de 2022

QUESTÃO DE PRIORIDADE

Acordava bem cedo, no primeiro raiar do dia já estava com o café pronto. Era neste momento que colocava-se munida da xícara, com o líquido revigorante, e ainda escaldante, na frente da tela. Era assim que acontecia o decorrer de seus dias:

Primeiro abria o e-mail, respondia às urgências, a cada uma dava atenção especial, mesmo que a urgência fosse apenas da parte daquele que enviava. Respondidas as urgências que versavam em questiúnculas, como: a confirmação de presença em um evento, um lançamento imperdível, um comunicado irrelevante, um cupom de descontos e etc. 

Seguia, então, para a próxima etapa, que consistia em conferir detidamente as ofertas, todas elas de inutilidades indispensáveis, que iam de cremes milagrosos a aparelhos de ginástica que não exigiam esforço físico algum. Por fim, rumava aos noticiosos, pois estes lhe tomavam mais tempo. Como ninguém é de ferro, depois desta parte penosa, dava-se um refresco percorrendo as páginas de entretenimento e fofocas. Geralmente quando terminava esse tour matinal já era perto da hora do almoço e quem a avisava do adiantado da hora, quase sempre era o estômago.

Após o almoço, voltava para a maratona da tarde. Depois de alimentar-se, era hora de alimentar também as redes sociais que mantinha. Escolhia o mote das postagens, que deveriam conter obrigatoriamente texto e imagem, por vezes, até mesmo um link. Buscar imagens, produzir texto, linkar tudo e postar, em seguida repostar em todas as outras redes sociais, com pinceladas nos storie. Depois aguardar impacientemente, para responder a todos os que interagiam à tais postagens, em cada uma das redes…Uma por uma.

A depender do teor do conteúdo escolhido, as reações por vezes eram divertidas, por outras mais espinhosas- essas quase sempre envolviam política, futebol ou religião, a “tríade da confusão”-, era assim que havia apelidado esses assuntos, sempre polêmicos.

Escolhia o assunto conforme o humor do dia. Isto era trabalho que perdurava o dia todo e até mesmo nos seguintes. Então, sempre que era avisada das notificação de interação, acessava a rede para responder prontamente aos comentários. Comentários por vezes tão elogiosos, delicados, que lhe serviam de combustível para continuar. Repetia para si mesma, em tom de afirmação e autoconvencimento: “vale a pena o sacrifício desse compromisso”.

Concomitantemente estava sempre com os aplicativos de mensagens instantâneas on-line, respondendo aos bons dias, boas tardes e boas noites, em tempo real. Respondia no grupo de culinária, no dos pets, no de artesanato, no de política, no de amizades, no de músicas antigas, no de filosofia, no de decoração, no de celebridades e todos os outros. Achava uma falta de educação deixar de responder.

Não desgrudava por um minuto sequer do aparelho celular, era como se ele fosse uma extensão de seu corpo. Levava-o consigo como um doente pulmonar leva seu cilindro de oxigênio, dependente daquele aparelho para tudo, sem ele era como se estivesse nua em plena Paulista, um desalento terrível a invadia. E, se por acaso, não o enxergasse próximo de si, entrava em estado de alerta, um pânico a tomava, alardeava o fato como se tivesse se perdido de um filho de colo. Colocava todos ao seu derredor para procurar o aparelho e quando alguém o encontrava, quase sempre perto de si, quase que debaixo de seu nariz, nos lugares mais óbvios, tinha ímpetos de beijar as mãos de seu salvador- aquele que o havia encontrado.

Há muito via o mundo passar por si, por uma tela. Conhecia o mundo: os nomes, os lugares, as pessoas. Mas, não sabia como era estar nesses lugares, não sabia como era andar por esses lugares, estar com essas pessoas, não sabia das sensações, dos gostos e cheiros. Não conhecia, portanto. Apenas sabia que existiam, e imaginava que os conhecia. Pura ilusão.

 O que sabia de forma concreta, embora fosse difícil admitir, era que aquela tela todos os dias, lhe roubava dias inteiros.

 Determinado dia, num start, ciente de que seu tempo se esvaia à cada toque, decidiu divorcia-se da tela. Provou o seu café sem a companhia dela. Sentiu-se viva. Pôde assistir em tempo real, as primeiras luzes do dia lhe visitando, o ar fresco que há tanto não sentia, colocou um sorriso em sua face, que não postou no “Face”. Um sorriso só seu, e isso lhe bastou.

 Até levou um susto quando o vizinho desejou bom dia e um maior ainda quando ouviu o som da própria voz respondendo. Fato este inusitado, uma vez que dava centenas de bons dias todos os dias, mas, há tanto tempo não ouvia uma voz humana, pessoalmente, lhe desejando um…

Naquele dia não se sentou na frente da tela nem a carregou como filho de um lado para o outro. Naquele dia viveu o dia inteiro.

Ana Leite
Ana Leite
Ana Leite é paulista, natural de Campinas. Cientista Política e Escritora, autora do livro, "Aqui Dentro Faz Sol", pela Multifoco.

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