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quinta-feira, 29 de julho de 2021

CUBA: liberdade x utopia

Foto: Getty Images via BBC News

A revolução cubana de 1º de janeiro de 1959, encabeçada por Fidel Castro, atravessou o século XX e chegou ao XXI com muitas agruras, como a crise dos anos 90, época esta denominada de período especial, a crise dos anos 90 foi desencadeada pela dissolução da União Soviética, em 1991. A revolta de agosto de 1994, ou como ficou conhecida, Maleconazo, era, então, antes do último dia 11 de julho de 2021, a maior concentração de cubanos em vias públicas, contra o regime. Com o diferencial de que em agosto de 94, apenas Havana foi tomada.

O que se viu em 11 de julho de 2021, impacta pelo ineditismo, no decorrer desses 62 anos de revolução. Em toda a extensão do país caribenho ecoaram vozes clamando por liberdade. Vozes essas que reverberaram pelo mundo e, este atento,volta seus olhos para a ilha.

Os relatos que nos chegam, são de prisões arbitrárias como a da jornalista Camila Acosta, de mortos e feridos, do corte sistemático do sinal de internet, dos apagões elétricos rotineiros, do caos total no sistema de saúde, a escassez de remédios básicos, a fome que assola a nação, além da ausência de itens primários de higiene e etc.

A Ilha Dependente

Desde a revolução, a consequente estatização dos meios de produção e a planificação da economia, Cuba sobrevive da ajuda de terceiros- países ideologicamente alinhados, para além da ideologia que os une, Cuba é também um país geopoliticamente estratégico, fato este flagrante desde a crise dos mísseis em 1962.

Como numa confraria que reúne caudatários de uma mesma ideologia, Cuba firmou parcerias com países irmãos na utopia, assim foi com a antiga URSS, a posteriori com a dissolução desta sobreviveu com os aportes de recursos advindos da Venezuela, com a alçada de Chaves ao poder. Com o debacle da Venezuela, China, Rússia e Brasil investiram na ditadura, em obras de infraestrutura e parcerias comerciais, onde aquém do açúcar e tabaco, um dos maiores produto de Cuba em tempos hodiernos é o profissional liberal, formado em medicina, moeda de troca valorosa para a ditadura cubana.

A Pandemia, que ataca o globo em todos os flancos, desvela a utopia cubana em seu cerne, coloca exposta uma de suas maiores vitrines para o mundo, que era o de um sistema de saúde exemplar. Cuba, atualmente, detêm o maior nível de contágio por covid das Américas. O caos no sistema de saúde foi um dos busílis para a revolta popular.

Caos no Paraíso

Enquanto o mundo assiste o povo cubano clamando por liberdade, num flagrante contrassenso, muitos caudatários de tais ideologias aclamam a ilha caribenha como o paraíso na terra e expõem o desejo de que a ilha continue um bastião ideológico. Para os mais céticos e, portanto, menos suscetíveis à soluções mágicas, a ilha dos Castros nunca seduziu, pois desde a sua nascente foi forjada à base de mordaça e chumbo. É fato público, os fuzilamentos em Sierra Maestra, Ernesto Che Guevara em pessoa, no dia 11 de dezembro de 1964, na 19ª Assembleia Geral da ONU, confessa que o regime estava fuzilando e que continuariam.

Desde o início da revolução, abundam os relatos de mortes- a maior parte por fuzilamentos. Sendo considerado o regime mais sanguinário das Américas. Como todo regime ditatorial, os números são destoantes. Algumas fontes falam em 17 mil mortes, outras mais comedidas, computam 8.190 mortos, muitas dessas vidas ceifadas nos famigerados julgamentos extrajudiciais. Fato é que por ser um regime fechado, pouco se sabe acerca dos números reais, em fuzilamentos, nas masmorras insalubres, ou daqueles que perderam suas vidas na travessia via mar, no afã de liberdade. Esta mesma liberdade que move os nativos, a saírem às ruas, neste julho de 2021, num ensaio de quiçá uma primavera cubana, em muito fomentada pela articulação via rede, uma vez que a ilha caribenha tem aberto o acesso à internet, desde 2018.

A Democracia e Cuba

É divulgado anualmente um ranking das democracias pelo globo, onde são auferidos os níveis de democracia em 167 países. Os índices de classificação vão desde às democracias plenas, passando pelas democracias imperfeitas, as híbridas, até os regimes autoritários. Este ranking é elaborado pela Economist Intelligence Unit, para essa medição, são avaliados 5 quesitos, a saber: Processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionamento do governo, participação política e cultura política.

Como sabe-se, apesar de haverem eleições na ilha caribenha, existe apenas um partido político, o Partido Comunista Cubano, nos moldes marxista-leninista. As liberdades civis são inexistentes. Aos críticos do regime é oferecido: espancamentos, interrogatórios arbitrários, humilhação pública, prisões políticas, restrição e proibição de viagens, demissões da máquina do governo, vigilância, o total degredo existencial, enfim. O funcionamento do governo é como uma propriedade privada dos que detêm o poder, a participação política e cultura política, é vedado a todos aqueles que não coadunam com a cartilha do regime, inexiste pluralidade de pensamentos. Inexiste o respeito às liberdades individuais, nenhum apreço pela diversidade.

Cuba é, portanto, um regime ditatorial no ranking de democracias ocupa a posição 140ª. É o país mais autoritário das Américas.

A Utopia Sexagenária

A antiga União Soviética, perdurou por longos 69 anos, até sucumbir. A experiência castrista é também uma sexagenária que parece começar a cambalear. O prazo desses experimentos sociológicos, econômicos, psicológicos, parece ter um prazo de validade, até o povo perceber o grande embuste na qual foram inseridos.

Não é todo nativo que consegue deixar o cativeiro na ilha, como fez por exemplo Orestes Lorenzo, na sua fuga dupla das garras do sistema, a primeira em voo solo no MiG-23, a outra a bordo de um Cessna 310F, na qual resgatou sua família, da ilha dos Castros. Existem aqueles que até tentaram como foi o caso dos boxeadores que pediram asilo político em solo brasileiro e como resposta foram deportados para Cuba. Ou ainda aqueles que permanecem numa espécie de síndrome de Estocolmo, onde passam a ter empatia por seus algozes.

Fato é que muitos caudilhos latino americanos, ainda hoje endossam o experimento cubano, mitigam o fato de ser uma ditadura sanguinária confessa, lembremos que o próprio Che Guevara em alto e bom som, confessou na 19ª Assembleia Geral da ONU em 1964.

Liberdade Para Cuba

Cuba clama pela liberdade econômica, ao fazer da retórica de que todo mal que jaz na ilha é advindo dos embargos impostos pelo governo americano. De fato, existem embargos desde 1960, que foram adotados em represália à estatização de bens de empresas americanas na ilha, além da taxação de produtos dos EUA e pelo país caribenho estabelecer relações comercias com a antiga União Soviética. No decorrer dos anos, houveram endurecimento e relaxamento, neste concernente por parte dos EUA, a depender do governante da vez. Embora existam os embargos, Cuba e EUA continuam a fazer comércio.

 É dicotômico o clamor de Cuba pela liberdade econômica, o livre comércio, mas é algo positivo uma vez que esse desejo possa ser o primeiro passo para que os cidadãos cubanos possam gozar da liberdade no amplo, sem as restrições de uma ideologia utópica, que o lastro histórico nos mostra que é fadada ao fracasso.

Pois, como se sabe, cada indivíduo é um universo em si, cada qual carrega sonhos e particularidades que os diferencia. Um Estado ideológico que propõe a igualdade total (utópica), aquela que não versa apenas ao direito natural, e se julga capaz de atender as demandas de todos igualmente, é um estado que só se manterá por mãos de ferro. Países em que o experimento foi tentado, descambaram em ditaduras, pois assim que a utopia entra, retiram-se todos os direitos naturais: o primeiro a sair é a liberdade. E um povo sem liberdade, é castrado, mutilado, em seus sonhos e particularidades. Liberdade para Cuba.

Ana Leite
Ana Leite é paulista, natural de Campinas. Cientista Política e Escritora, autora do livro, "Aqui Dentro Faz Sol", pela Multifoco.

2 COMENTÁRIOS

  1. É difícil de entender como pessoas bem instruídas defendem este tipo experimento social, o socialismo e suas correntes (correntes no sentido literal também). A destruição moral da sociedade foi algo instituído nas escolas, prevalecendo o niilismo e o relativismo no coração dos indivíduos. Espero que o povo realmente botem para fora do poder os algozes que dominam a ilha e surja um novo período de prosperidade. Parabéns pelo texto.

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