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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Desagravo aos Fofoqueiros

Se existe uma classe que é enxovalhada peremptoriamente é a dos fofoqueiros. É lugar comum participar de conciliábulos, convescotes, onde a figura do fofoqueiro é repudiada com enorme esgar. Mas, advogo a tese de que os fofoqueiros são peças fundamentais em uma sociedade pujante, são eles os responsáveis pela saúde de uma sociedade, cimentam com suas futricas as relações sociais. Explico:

Imaginem se não existisse a figura da fofoqueira de bairro… Se de uma hora para a outra como num passe de mágica, sumissem dos bairros todas as fofoqueiras! Como dar-se-iam as mediações entre vizinhos, ou os romances e até casamentos?

Para sustentar minha tese, trago casos reais:

Certa feita, a fofoqueira mor do bairro, conhecida pejorativamente como “notícias populares”, parou a moça que passava em sua calçada e com enorme destreza, dessas que só as fofoqueiras têm, foi introduzindo vários assuntos até dizer o que queria dizer: que o rapaz da antiga 12, o da moto vermelha, olhava a moça de forma diferente.

A moça saiu do portão da fofoqueira outra pessoa, agora sabia da existência do rapaz da moto vermelha e começou a também olhar o moço de forma diferente. Saiu casamento! Mas a fofoqueira que deveria ser madrinha, no mínimo, nem para a festa foi convidada, enorme injustiça!

Em outra ocasião a fofoqueira mor, digo mor, pois sempre tem aquela que se destaca: a que é a mais dedicada no empreendimento, a que faz frente aos mais modernos sistemas de circuito fechado de vigilância, as que sabem de tudo e de todos, as que não cochilam, são como Argos: têm cem olhos à espreita…

Pois bem, como eu contava, certa feita uma fofoqueira dedicada, ouviu um zunzunzum, um disse me disse de uma fofoqueira menor- as fofoqueiras menores são as aspirantes à fofoqueira mor, mas que ainda não detêm a expertise da função na totalidade, são amadoras, todavia quase sempre com enorme potencial.

Feito o esclarecimento da terminologia, sigamos com a narrativa. A fofoqueira menor comentou com um conhecido que ela tinha ouvido falar de fonte segura de um episódio envolvendo a vizinha da esquina, episódio este que por sorte caiu nos ouvidos atentos da fofoqueira mor, um fuxico corriqueiro que consistia basicamente no seguinte: de que a D. Carmela estava devendo há tempos para a vizinha da esquina.

Por sorte, calhou de D. Carmela passar na frente do portão da fofoqueira mor e entre um comentário sobre o tempo e a chuva que prometia dar as caras e o preço da cebola que estava os olhos da cara, a fofoqueira aproveitou o ensejo da cebola e, introduziu o tema da dívida. D. Carmela agradeceu imensamente, pois há tempos estava com a memória fraca, a família suspeitava até mesmo de Alzheimer confidenciou em segredo a D. Carmela para a fofoqueira… Imediatamente D. Carmela saudou a dívida com juros e sinceras desculpas pelo lapso.

Tudo resolvido, graças à intermediação dos fofoqueiros. Pois neste episódio em específico, foram os esforços de vários mexeriqueiros que construíram o sucesso do caso. Importante também salientar que todos aqueles que em outrora já olhavam D. Carmela como caloteira, agora a viam com olhos de compaixão, pois a fofoqueira mor, que não brinca em serviço, fez o combo completo da fofoca- aproveitou para espalhar aos quatro ventos que D. Carmela estava com Alzheimer.

Nas imediações onde existe um fofoqueiro mor, não há sumiço de bicicleta que permaneça de autoria desconhecida, não há corno que saiba por último, simplesmente não existe crime perfeito. As fofoqueiras são aliadas até da polícia, testemunhas de qualidade indiscutível:

 Sumiu alguém? O fofoqueiro sabe a hora que a pessoa saiu de casa, de quem estava acompanhada e se bobear ela anota até a placa do carro. Touché, é caso resolvido!

Ledo engano também imaginar que o fofoqueiro necessariamente deva ser uma mulher, quase sempre uma matrona, como está incutido no imaginário popular. Homens quando se propõem ao ofício da fofoca, desempenham o labor, com presteza e enorme competência. Independe de sexo, raça, credo e etc. O fofoqueiro, é um ser que nasce vocacionado para a comunicação. Detêm a expertise das técnicas mais elevadas no que concerne à fomentação e mediação de conflitos.

Fofoqueiros são os precursores dos jornalistas, todo fofoqueiro é um jornalista por excelência. Todo fofoqueiro é douto em espionagem e articulação. Se todo homem é um animal político, os fofoqueiros encabeçam a cadeia alimentar, políticos natos, com enorme poder de articulação. São câmeras ambulantes e diretores do “Big Brother” da vida real!

Pelo apresentado posto, sou do partido de que todo bairro, vila, lugarejo, deveria ter uma central da fofoca, onde o fofoqueiro mor seria gerente das operações e os moradores o remuneraria com salário atrativo mais benefícios pelos seus valorosos serviços à sociedade.

Ana Leite
Ana Leite é paulista, natural de Campinas. Cientista Política e Escritora, autora do livro, "Aqui Dentro Faz Sol", pela Multifoco.

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