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sábado, 22 de janeiro de 2022

Uma História de esquecimento

Mês de setembro. Verão, quentura e recordes de temperatura. Aquele fervente cenário não mostrava apenas o ir e vir de alunos. No meio dos carros de luxo, táxis e pessoas com relógios caros, um jovem negro de bicicleta não se parecia afligir. Tinha uma bolsa de estudos, um bocado de sonhos, um quarto sem cama, uma casa sem dinheiro, uma mochila pesada, um trampo de noite no restaurante, vindo da favela para o bairro de luxo estudar numa escola cara, com esforço, com garra, com coragem, confrontando o sistema. Quantos outros não travam essa luta todos os dias? Tantos olhares desconfiados, tantas críticas, tamanha exclusão social, o esforço para fugir do passado genocida, do passado escravocrata que ainda insiste em aparecer. Lutadores com a pele de guerreiros zulus, compartilhando uma história marcada pelo genocídio coletivo de crenças, de vidas, de sonhos…

Assim como uma roda de capoeira expressa a resistência daqueles que corriam pela mata rasteira em busca de liberdade, a persistência do jovem de bicicleta é um recado a essa sociedade construída sob o sangue preto, pilares negros servindo de base para o crescimento de homens brancos que tiraram suas riquezas, seus nomes e suas terras. Pilastras essas erguidas desde quando o tataravô daquele jovem era chutado e cuspido. Ao observar o menino pedalando na direção oposta dos grandes carros, não é difícil perceber que os degraus responsáveis pela ascensão do homem branco, são negros. É a história de Palmares, de todos os quilombos que bravamente resistiram à opressão. Seria ousado dizer que ainda resistem, quando afirmações como essa fizeram vítima Marielle, e matam diariamente tantas outras Marielles¿ Quantas mãos negras alimentaram as mesmas bocas que proferiram suas dolorosas sentenças? A pressa do menino em sua bicicleta realmente faz refletir: quais são as verdadeiras raízes do Brasil?

Revoltas, abortos e suicídios. Palmares, Jabaquara e Buraco do Tatu. Tanta resistência! Mas a cultura eurocêntrica insiste em desvalorizar a bravura de um povo. “Uma população ingênua, que aceita o extermínio dos seus de forma branda”. É assim que contam a história dos nagôs, haussás, malês, povos distintos, mas tão iguais aos olhos brancos. “É a punição que merecem por terem nascido com a marca do pecado”, eles disseram. “Sofram como Jesus também o fez!”. Aprenderam nas forçadas catequeses que esse pálido homem de olhos azuis pregava amor e paz, mas disso nada tinham experimentado por essas terras. Xangô que os protegesse, Oxum que os amparasse. Porém, cuidado! Nunca os mencione em voz alta. Deles só se pode falar nas silenciosas preces proferidas na calada da noite, a esperança que nunca morre de um povo que sonha com a liberdade.

Quando o jovem avista a viatura da polícia, já sabe o que vai acontecer. Bicicleta caída, mãos atrás da cabeça, corpo encostado na parede. O passado que se repete no presente. Talvez a essa hora seus antepassados estivessem na mesma posição, esperando as chicotadas. “O que está escondendo aí, garotinho? Sabemos o que pessoas como você fazem!”. Ironicamente, Zumbi, Mandela e Martin Luther King dedicaram suas vidas à liberdade de milhões. O que pessoas como os policiais fazem? Infelizmente, o garoto preto e sua vizinhança têm essa resposta. Quando a polícia invade, não há quem salve. “As mortes ocorrem por consequência não intencional”, mas percebem-se suas ações perversamente intencionadas.

As maiores vítimas são as crianças. Inocentes, crescem vendo as atrocidades do mundo, principalmente do seu mundo. Racismo, massacres, escravidão, genocídios históricos. E, como num evento trágico de filme de terror, com uma bala perdida, um ataque racista, um desemprego, têm seus sonhos findados sem motivo. Buscam seguir os passos de suas grandes inspirações, mas os exemplos que vêem diariamente são muito diferentes, são os casos de Jenifer, Kauan, Ágatha, João Pedro, Kauê… A vontade de brincar ainda existe, mas, mesmo com pouca idade, já compreendem que seus corpos são alvos.

Desde pequenas, percebem que o lápis “cor de pele”, na verdade, apresenta um tom diferente do seu. Ninam em seus braços bonecas brancas que chamam de filhas, escutam desde cedo que não podem ser o super-homem pois são muito diferentes dele. Então, encontram no Pantera Negra a representação de seus sonhos por um futuro de grandeza e justiça. Infelizmente, os milhares de Panteras Negras que surgem todos os dias nas comunidades são os que mais precisam de proteção contra balas perdidas… ou nem tão perdidas assim. Afinal, como explicar que 80 tiros foram engano?

Autora:

Nicole Castro

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