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quinta-feira, 29 de julho de 2021

As duas realidades do Brasil atual

Recife, 11 de junho de 2021

Vivemos atualmente no Brasil duas realidades: uma oficial e outra paralela. A primeira diz respeito ao normal das pessoas e seu cotidiano, isto é, muito desemprego, inflação acelerando e muitas mortes e infectados pelo conorona vírus e a doença covid 19. A outra diz respeito ao discurso e mesmo a pratica do presidente da República e seus seguidores. Essa realidade “alternativa” e que parece ser a que seus defensores parecem querer emplacar definitivamente substituindo a primeira é mais complexa de entender em parte porque envolve premissas filosóficas estranhas. As bases dessa realidade podem ser encontradas em algumas estruturas interpretativas da realidade feitas por determinadas pessoas e grupos que veem a realidade planetária como algo construído por interesses escusos e malévolos, elaboradas por globalistas.

A realidade a ser superada está baseada, segundo seus seguidores, em aspectos negativos e deprimentes onde os ideais imperialistas originários nos Estados Unidos, no marxismo e em outros movimentos com vertente cientifica que sustentam que o planeta passa por problemas sérios como o desmatamento e o aquecimento global. As teses dos que se opõe a isso sustentam aspectos relacionados com as teorias da conspiração e asseguram que estão tentando impedir a implantação do comunismo no mundo e a dissolução do cristianismo. Essas pessoas afirmam que a disseminação de vírus e doenças por países como a China e mesmo o imperialismo dos Estados Únidos da América são a continuação do império romano e que seus fundadores e lideres principais são dominados e coagidos a agirem por influência de sociedades secretas, sobretudo a Maçonaria. Mas não só; a ordem Rosacruz e mesmo a ioga e o papa Francisco seriam também participantes nesses esquemas a serviço dos globalistas. A ioga por alterar com seus movimentos e jeito de encarar a vida e a mente das pessoas; o Papa Francisco por ser um ingênuo e por nem desconfiar do que se passa com a igreja e com o mundo em seus subterrâneos e a luta pelo poder. Essas ideias pertencem a Olavo de Carvalho e podem ser consultadas em seus livros, sobretudo no “Jardim das Aflições”. Esse “filosofo” é um dos que elaboraram a realidade paralela que alguns que chegaram ao poder tentam implantar.

Essas teses acima mencionadas envolvem os aspectos elencados, apesar de parecerem sem sentido, e tentam juntar num mesmo plano de analise inimigos declarados desde muito tempo como os Estados Unidos, o marxismo e as “esquerdas”. A configuração geral dessas elaborações é de que existe um conluio mundial organizado secretamente por mentes poderosas que interferem nas pessoas individual e coletivamente e as conduzem para atender determinados fins. Seriamos todos no fim de tudo conduzidos a agir de determinada maneira sem nem ao menos desconfiarmos de que somos manipulados por tais mentes. O “filósofo” citado anteriormente fala em que somos subjugados por mentes poderosas que se utilizam de técnicas como: reflexos condicionados, lavagem cerebral, guerra psicológica, influência subliminar, controle do imaginário, engenharia comportamental, informação dirigida, programação neurolinguística, hipnose instantânea, estimulação por feromônios, entre outros meios. Segundo esse “pensador”, seriamos apenas o receptáculo de tais ideias que nem conhecemos e sem saber passamos a agir segundo as mesmas. Os principais fatos do século XX, segundo ele, foram frutos dessas mentes e de seus interesses.

Um outro substrato dessa situação tem a ver com os governos petistas e seu legado deixado – positivo e negativo. Após treze anos o Partido dos trabalhadores foi alijado do poder por um movimento de impeachment que seus seguidores denominam de golpe parlamentar. O fato concreto é que o petismo deixou muitas conquistas positivas na sociedade brasileira, mas também deixou um rastro de corrupção e erros sérios que o partido e seus seguidores juravam não cometer. ( e que até hoje não se dignaram fazer um mea culpa) Esse vácuo deixado pelo petismo foi ocupado pelo grupo que ora está no poder e que fez muito bom uso do desgaste do Partido dos Trabalhadores e de seus erros. ( afora o uso das redes sociais de maneira inescrupulosa procurando difundir mentiras e manipulações de fatos) Nesse sentido o discurso do bolsonarismo fez e ainda faz sentido para uma parcela considerável da população brasileira que acreditou no petismo e no discurso ético de anos de militância do partido ligado a “esquerda”. Reunindo essa parcela da população bolsonarista – cerca de 30% – e os descontentes com o PT e temos a configuração suficiente que explica a vitória dos que comungam das teses relacionadas com a teoria da conspiração e a realidade paralela. É bom não esquecer que os governos petistas em nada podem ser associados com socialismo ou mesmo algo radical; para tanto basta lembrar da carta aos brasileiros de Luiz Inácio Lula da Silva e da composição de seus governos onde predominou a colaboração entre setores da sociedade e nunca uma ruptura como propõe as teses marxistas, por exemplo. Os governos do PT foram associações entre vários setores da sociedade brasileira e podem ser classificados como governos populistas e nunca socialistas. Nesse sentido, o discurso dos grupos que sustentam Bolsonaro não se justifica pois não é mais possível falar em “esquerda tradicional” como ficou conhecido esse movimento, pelo menos até a queda do Muro de Berlim em 1990.

Além dessas nuanças elencadas , a realidade que os adeptos do olavismo/bolsonarismo e que abarca grupos ligados a movimentos nazifascistas e mesmo suprematistas brancos querem implantar possui outras marcas bastante evidentes e que tem a ver com a prática cotidiana dos mesmo, digamos assim : desapego a ciência, vista como formulações globalistas e de setores marxistas; violência escrita, verbal e física como forma de expor suas teses; perseguição, calunias e intimidação de oponentes; escarnio e desdém pelas opiniões opostas; busca de medidas alternativas que sustentem suas teses, mesmo que sem comprovação técnica/científica. Essas práticas se estendem desde o governo central e sua estrutura organizacional abrangendo também setores ligados a algumas igrejas evangélicas, setores da mídia e artistas. No campo político temos no congresso Nacional a chamada “tropa de choque” do governo, atuando no parlamento em prol desses ideais. No governo ainda podemos citar como componentes e defensores de tais teorias setores das Forças Armadas – estima-se que mais de 6 mil militares ocupem cargos no governo central.

Esses são os contornos gerais da situação. Às vezes fico com a sensação de estar perdido e/ou mesmo atordoado entre as duas realidades existentes: a “normal” e a “inventada”. Trava-se no pais atualmente uma batalha entre essas duas realidades. Amplos setores ligados ao que se pode chamar de “esquerda”, setores da imprensa e intelectuais tentam combater as teses da realidade paralela que o bolsonarismo tenta implementar. Não se trata de um simples embate entre o bem e o mal. É muito mais do que isso. Está em jogo no Brasil atual uma disputa entre um grupo de pessoas que chegou ao poder e quer fazer valer a sua visão de mundo, não importando muito os métodos para atingir tal intento. O outro lado dessa situação é a realidade que já tínhamos, isto é, difícil, excludente onde as marcas fundamentais da sociedade brasileira sempre predominaram: patrimonialismo, preconceitos diversos, discriminações e desigualdades. Isso quer dizer simplesmente que os que já lutavam de diversas maneiras para tornar o pais mais justo e menos desigual agora têm de deixar momentaneamente essas questões de lado e se votar para o combate a realidade paralela que querem construir. Ou seja: definitivamente “ esse não é uma país para amadores” em qualquer sentido dessa expressão.

Autor:

José de Araújo Costa

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