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sábado, 15 de junho de 2024

Do Pinocchio às “Fake News”

Um dos vocábulos mais conhecidos na atualidade, “fake news”, é de origem inglesa. Entretanto, todo mundo, até mesmo qualquer um que nunca tenha tido qualquer contato com esse idioma, sabe que o mesmo significa mentira ou a disseminação desta. Infelizmente, tornou-se parte do cotidiano no país. Mas afinal, como isso se propagou e se fez crença, mesmo nas maiores aberrações, e de outra parte, porque muitos sabendo ser inverídico, nem mesmo a refutaram, permitindo com essa omissão que esse comportamento se expandisse, e a inverdade prosperasse?

Na infância de boa parte dos leitores, havia um personagem de Walt Disney chamado Pinocchio. Era um boneco de madeira, criado por um senhor chamado Gepeto, com uma simbologia de uma criança ideal. Entretanto Pinocchio enveredou pela mentira, e quando a praticava, seu nariz crescia. Assim, naqueles tempos, brincávamos quando detectávamos que alguma pessoa, adulta ou criança, enveredava pela mentira, e dizíamos que o nariz dela cresceria. Tudo era levado de uma maneira lúdica, e ali mesmo, em muitos casos, a mentira caía por terra e a verdade aparecia.

Numa cronologia rápida e sucinta, a disseminação da mentira foi causa de acusação e condenação de muitos. A inverdade corria rapidamente de boca em boca, e muitas vezes nos séculos 18 e 19, ocasionou linchamentos morais e execuções, boa parte de natureza religiosa. Mais à frente veio a mentira de uma maneira mais apurada. Um exemplo marcante, foi o do chefe da propaganda nazista, Goebbels, que afirmava que uma mentira repetida mil vezes virava verdade.

No nosso país houve, em 1994, um caso de grande comoção. Um casal, dono de uma escola em São Paulo, a Escola Base, foi acusado pela imprensa de abuso sexual contra alunos da escola. Houve um linchamento midiático do mesmo, e o casal passou por um traumático processo psicológico e moral. A mídia serviu de acusadora, júri e juiz do casal. No final ficou constatado um gravíssimo engano, pois nada daquilo havia ocorrido.

Hoje temos as mídias sociais. E então, arrisco dizer que tanto o Pinocchio individual, no qual a própria pessoa se apresenta de uma forma irreal para os demais, ou o Pinocchio oculto feito através de empresas, criadas para esse fim, se disseminaram rápida e profundamente. As plataformas de mídia têm dado uma excelente oportunidade para que isso ocorra.

O “Pinocchio individual” pode se manifestar de várias maneiras. Uma delas é quando um posta fotos ou mensagens no seu perfil, deixando transparecer um sentimento, normalmente de prazer e alegria, que às vezes se contradiz, ou apenas exagera, à sua realidade interior.

Mas o que tem mais afetado à sociedade são os “Pinocchios ocultos”. Empresas especializadas estão sendo acusadas por disparos de falsas notícias em três importantes eventos, influindo, enormemente, nos resultados. Foram as eleições de Donald Trump nos EUA, de Bolsonaro aqui no Brasil, e a saída da Inglaterra da UE, o Brexit. A maneira como essas plataformas “trabalharam” pode ser vista nos documentários O Dilema das Redes e Privacidade Hackeada. O que fez com que grande parte da sociedade acreditasse nessas “notícias” amplamente difundidas eletronicamente? São praticamente dois sentimentos, medo e raiva, os mesmos usados por Goeblles na Alemanha nazista, e um “alvo”, nesse caso os judeus. Esses dois sentimentos direcionam a atenção imediata, têm efeitos prolongados na mente e há uma extrema dificuldade de serem removidos, mesmo quando a razão é chamada, pois a partir da existência de um movimento amplo de divulgação da mentira, o restabelecimento da verdade se torna difícil. Assim, cada um entra num ciclo capturado pela atmosfera virtual e social, e tem imensa dificuldade de sair. O indivíduo se vê aprisionado cada vez mais, e com maior volume de inverdades lançadas sobre ele, estas o afundam na teia estudada e criada para isso, pois se vê em grande luta interior para admitir que foi enganado por fatos cada vez mais estarrecedores e claros. E assim o engano que ele recebe e aceita, o alimenta, ou seja, é o próprio autoengano em ciclo fechado, tornando a saída do indivíduo desse sistema, muito difícil e dolorida.

Como a sociedade “moderna” se encontra num caos individual e social, provocado por vários fatores, entra em cena um outro ator primordial nesse processo de mentira e engano, que é a busca de um salvador. Assim, um processo de desarranjo individual se expande para toda a sociedade, e esta inicia a busca de alguém que a guie na saída desse caos. Surgem assim, os falsos líderes ou messias. E como o fim encontrado, o messias, provém de um meio em caos, o final não pode ser outro se não mais caos. É só olhar para o passado nazista ou para vários casos no presente. E quando o messias aparece, ele sabe que, para sua manutenção, é primordial alimentar o medo, o rancor e o caos, e assim ele mesmo realimenta o sistema que o encontrou.

O duro, para quem está retido psicologicamente nesse processo, é a hora do encontro com a realidade. E quando esta se torna clara, o sofrimento do “desmascaramento” pode ter um custo psicológico gravíssimo para quem permaneceu por maior tempo na crença irreal. Há entretanto um dano a todos os demais, inclusive aos que não estão capturados pelo ciclo, muito maior. Da mesma maneira, esse prejuízo, ao atingir toda a sociedade, será tanto maior ou mais profundo, quanto maior for o tempo para que o esclarecimento apareça. Já estamos a ver isso no trato da pandemia por aqui.

E como uma sociedade poderia sair desse ciclo? Acho que primeiramente deveria haver uma conscientização para tentar não entrar no mesmo. Talvez em ambos os casos, tanto na não entrada como para a saída, o melhor caminho seja um comportamento generalizado para refutar notícias que façam florescer sentimentos de ódio, medo, e busca de um salvador, pois quando estes chegam de modo massivo, e atingem boa parte da população, é bom que todos redobrem o alerta, pois já pode ser tarde.

São os caminhos mais largos, os que comportam milhares de pessoas, onde muitos não têm nenhum senso crítico, guiados por incompetentes e inconsequentes, que tendem sempre a conduzir ao precipício social. Assim, o controle da razão e do senso crítico, adicionado ao posicionamento de rechaço às “fake news”, pode levar a sociedade ao final das historinhas de Pinocchio que hoje desaguam nas mídias sociais, e nos levam à completa distopia social.

Autor:

Francisco Martins Neto

4 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto. Infelizmente o mundo está repleto de “Pinocchios” e fake news, consequentemente. E as redes sociais só serviram para aumentar os casos de mentiras/inverdades.

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