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quarta-feira, 21 de abril de 2021

Mesmo Que Ela Não Saiba

Quando mais jovem eu trabalhei em uma locadora de vídeo, no auge da época do DVD. Sempre tive muito prazer em facilitar o encontro de cineastas de qualidade com pessoas que precisam de suas histórias. 

E todos precisamos de uma boa história de vez em quando. Aquelas duas horas que tiramos do dia para ver um filme ou ler um livro servem para nos revigorar e tirar de nós o cansaço; ou, então, para alegrar mais ainda um momento em família ou amigos. 

Alguns gastam mais horas com isso do que outros, e isso não deve ser usado como medidor de felicidade de pessoa alguma. 

Mas se for para medir essa felicidade, eu tenho certeza que Bernadete seria o melhor exemplo a ser utilizado. 

A conheci pela primeira vez com seus dez anos, quando seus pais visitaram a locadora na qual eu trabalhava. Era a única do bairro e sempre tinha movimento, até porque a qualidade de nossos DVDs e do atendimento, modéstia à parte, sempre foram excelentes. 

Seu pai, Alexandre, era um homem carinhoso e que sempre tinha um sorriso em seu rosto. Mas quem nos visitava quase todo dia com a pequena Bernadete era a mãe dela, Silmara. 

Eu desconfio que Silmara foi quem passou o costume dos filmes para sua filha. Alexandre tinha um gosto peculiar para filmes, e apesar de já ter assistido diversos clássicos e até mesmo alguns menos conhecidos, era com Silmara que Bernadete sempre escolhia os filmes dela. 

O gosto de sua mãe era o mesmo que o seu, e poucas foram as vezes que a vi se arrepender. Era quase que uma rotina diária para mim aguardar o filme do dia anterior ser devolvido, e ajudar na recomendação de um novo para o dia de hoje. 

No dia seguinte? Tudo de novo. 

E assim foi por muito tempo. Eu diria que foram até por alguns anos. 

Mas, como tudo na vida, não durou para sempre. 

Bernadete cresceu, criou mais responsabilidades e a visita diária se tornou semanal, apesar de nunca perder aquela faísca que a atraía para os filmes desde o início. 

Até que recebi mãe, filha e pai uma última vez.

“Vamos nos mudar.”, me contou Silmara. Estavam indo para o interior em busca de uma vida mais tranquila, longe dos problemas da cidade. 

“Obrigada por tudo!”, nos disseram enquanto iam embora, sorrindo.

Mas, por trás do sorriso, senti falta da felicidade de Bernadete. Pouco a conhecia pessoalmente, mas sabia de todos os filmes que a acompanharam em seu crescimento. 

E sabia que ela iria sentir falta daquele lugar. 

Da mesma forma que eu sentiria falta de Bernadete e sua família. 

Pouco tempo depois, a locadora iria fechar. Não havia mais tempo para Silmaras e Alexandres levarem seus filhos para escolherem um filme. 

Onde era a locadora, agora está um restaurante de fast food, e o bairro não parece sentir falta de nós. 

Hoje, trabalho em uma livraria. E acredito que aqui eu devo ficar, pelo menos por mais algum tempo.

Perto do shopping onde ficamos tem um cinema, desses de rua. Costumo ver um filme ali, uma ou duas vezes por semana. 

E foi em uma dessas vezes que eu reencontrei Bernadete. Infelizmente, não a vi pessoalmente. 

Vi seu nome e sobrenome como estava na ficha do cadastro, e ela era creditada como Roteirista, no cartaz de um novo filme nacional. 

Agora, ela é quem me ajuda a conhecer novas histórias. 

Mesmo que ela não saiba. 

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