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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

É menino ou menina?

Minhas crônicas de quinta.

O ano era 97 (ou nove oito?) e Márcia estava grávida. Finalmente, chegara o dia do ultrassom que responderia a uma pergunta que, nas últimas semanas, pairava sobre a cabeça de toda a família Vieira: “é menino ou menina?”

Realmente, é uma grande dúvida. A gente precisa saber pra… não errar a cor do enxoval, e… porque já temos tecnologia pra isso… então… vamos usá-la…!

Marina, irmã da futura mamãe, acompanhou a gestante nesse dia, a fim de ser a única pessoa que saberia o sexo do bebê. Márcia, assim como toda a família, teria que esperar mais duas semanas, até o Chá de Revelação, pra descobrir se o seu útero encaminhava ao mundo o Gabriel ou a Gabriela.

“- Eu sabia!!!” – disse Marina ao médico, emocionada.

A maioria das simpatias clarividentes tinha batido: a do teste da colher e do garfo; a da presença de mancha na barriga; a do paladar da mãe; a da aliança; a do repolho; a da idade dos pais; a do queixo da mãe; e a da palma da mão. Só aquela do coração de galinha que não deu certo.

As duas mulheres saíram da consulta e, embora tomadas pela ansiedade, cumpriram o combinado. Marina fez boca de siri por duas semanas e Márcia caiu de cabeça nos preparativos do chá. A mulherada toda ficou animada e, por isso, elas ajudaram a preparar a tradicional reunião feminina, cheia de brincadeiras, que revelaria o sexo do bebê (naquela época esses eventos eram bem restritos… hoje em dia, homens também participam, em certo nível).

Bexigas rosas e azuis, bolo recheado com uma dessas cores e um bastão de fumaça colorida, comprado via Mercado Livre, pelo qual a cor que sairia só a Marina sabia. A festinha foi uma delícia e, mais pro fim do evento, a mulherada cantava e batia palmas – igualzinho seria nos futuros aniversários do bebê:

“- Aêêêêêê!! Gabrié, Gabrié, Gabrié…

Ouvia-se de longe o alvoroço, mas não dava pra entender se gritavam Gabriel ou Gabriela… percebia-se apenas que elas estavam muito felizes: e é isso que importa, né?

O engraçado nessa história, é que os anos passaram, e com eles, muitas festinhas de aniversário, com gritarias parecidas, aconteceram. Gabrié cresceu feliz, com seus primos, primas, e amigos, e nunca lhe faltou inteligência, vigor, saúde, amor e muita compreensão.

Hoje em dia Gabrié tem seus 22 (ou 23) anos, já está na faculdade, e nos seus afazeres cotidianos, frequentemente lhe direcionam a pergunta:

“- Você é menino ou menina?

Gabrié aprendeu a levar essa pergunta numa boa. Primeiro, porque sabe muito bem quem é; segundo, porque, apesar de meio chata, ela não muda nada em sua vida e; terceiro, porque volta e meia alguém vai fazê-la, pois a expressão da sua personalidade é assim: nem muito lá, nem muito cá. Nem muito rosa, nem muito azul: tons de roxo.

E tá tudo bem.

Luana Carvalho
Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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