Transgender…

Hoje vou falar um pouco sobre a minha condição… vou falar sobre meu gênero. Em linhas básicas, a humanidade entende a sexualidade quando apresentada de maneira simples e direta. Porém, nós somos seres complexos e a simplicidade não faz parte de nosso repertório. Entre o homem cis e a mulher cis existem variações, e nem sempre conseguimos entende-las. A maneira mais simples, que as pessoas usavam até a poucas décadas atrás era simplesmente homem, mulher e viado ou sapatão. Era simples, rápido e fácil identificar e rotular as pessoas. Mas…se fosse assim tão simples, que bom seria, não é mesmo? E aquele garoto que gosta de usar maquiagem, gosta de vestir roupas femininas, mas não tem nenhum desejo em arranjar um “namorado”… prefere mil vêzes as garotas e não se vê, de forma alguma, junto com um homem? E aquela menina, que gosta de se caracterizar como homem, mas gosta da companhia masculina para momentos mais íntimos e não aventa, nem mesmo em pensamentos, dividir sua intimidade com outra mulher? É… ficou complicado. Vamos complicar um pouquinho mais… e aquele rapaz ou aquela moça, que de tempos em tempos sente-se pertencendo ao outro gênero, mas sem mais nem menos, de um dia para o outro, volta a se identificar com seu gênero de nascimento? E aí? Como é que fica? Como eu disse, as coisas iriam se complicar um pouquinho. Bem, tentarei explicar por que nós, transgêneros, somos tão incompreendidas pelas outras pessoas, e até por nós mesmas… espero conseguir…

Bom… para continuarmos o assunto em pauta, vou retornar a um passado longínquo… vamos voltar à Grécia Antiga, berço de deuses e heróis que mais se pareciam com mortais do que com deuses, considerando seus desejos e suas falhas de caráter… e em que eles serão úteis para nossa conversa de hoje? Bem, pretendo falar da criação da humanidade, de acordo com os gregos…

No princípio, não existiam humanos no mundo, apenas os deuses. Zeus, Hera, Hades, Vênus, Marte… somente eles, seres superpoderosos em uma sociedade perfeita… mas tão perfeita, que em determinado momento ficaram chateados, pois nada tinham para realizar… foi aí que tiveram a ideia de criar o ser humano… um ser perfeito em sua essência, cuja finalidade única era adorar os deuses em toda a sua plenitude… mas… bem, eu acho que já dei uma pista sobre o porque isso não funcionaria, não é? Por que razão alguém perfeito iria prestar homenagens a outro ser? E tão perfeitos ele eram, que não tinham necessidade alguma de adorar ou amar quem quer que fosse, além deles mesmos…eram autosuficientes… os primeiros seres humanos dividiam-se em três gêneros… os filhos do Sol (masculino), os filhos da Terra (feminino) e os filhos da Lua (andrógino), que reuniam em um único ser os princípios masculino e feminino…

Como eu disse no princípio, eram seres perfeitos e completos em sua essência. E não viam por que teriam que adorar os seus criadores. Na verdade, em determinado momento, resolveram que deveriam destronar os deuses e assumir seu lugar… claro que não deu certo, não é? Como castigo por sua petulância, todos os seres foram divididos em dois, e espalhados pelo mundo… desde então, os seres humanos começaram a busca por sua alma gêmea…

Como expliquei acima, havia três classes de seres humanos na Terra, criados pelos deuses… os Filhos do Sol, os Filhos da Terra e as Filhas da Lua. Como dito anteriormente, os filhos do Sol eram o princípio masculino, os filhos da Terra, feminino e as filhas da Lua eram andróginos… ou seja, tinham o princípio masculino e feminino em um só ser. Por haver tentado derrubar os deuses, como castigo esses seres foram divididos em dois, e espalhados pelo mundo. Agora, vamos pensar em uma coisa… os filhos do Sol eram o princípio masculino… isso quer dizer que eles seriam os gays que conhecemos? É claro que não. Embora os seres fossem, a princípio, pertencentes a um determinado gênero, eles tinham as características dos dois sexos. E por quê? Simples… dois iguais não procriam… essa é uma lei imutável da Natureza. E aí entramos na senda dos… gêneros. Os filhos da Terra, assim como os filhos do Sol, tinham os dois sexos, embora pertencessem a um só gênero. As filhas da Lua, sim, tinham dois sexos e dois gêneros distintos. Isso posto, podemos dizer que as pessoas cis são, em sua essência, filhas da Lua. E as trans se dividem em filhos do Sol e filhos da Terra… o homem trans é um filho do Sol… a mulher trans, filha da Terra… por que essa divisão? Porque, quando dois filhos do Sol ou dois filhos da Terra, de gêneros iguais, mas sexos diferentes se encontram, podem conceber um novo filho da Terra ou do Sol. Quando um filho do Sol, se encontra com um filho da Lua, de gêneros e sexos diferentes, dessa concepção vai surgir um híbrido. O gay ou a lésbica, dependendo do sexo e do gênero de nascimento do descendente desse casal… Quando duas filhas da Lua, de sexos diferentes, embora de gêneros iguais se encontram, dão origem a um descendente cis, como elas. E assim vamos seguindo em frente… ahn… como é? Está tudo explicado, acabou tudo por aqui? É claro que não… agora vamos falar dos e das transgêneros fluidos…

Vamos continuar com os gregos, tentando explicar o inexplicável… afinal somos humanos e isso deveria nos bastar, mas, infelizmente, o mundo exige que expliquemos cada detalhezinho da vida para que ele possa entender. E muitas vezes, continua sem entender nada, não é mesmo? Bem, vamos lá… agora vou falar de meu personagem predileto… afinal, escolhi seu nome como título de meu livro, cujo tema só poderia ser o transgênero… Tirésias… Não sei se você sabe quem foi Tirésias. Bem, Tirésias foi um sábio grego que, por voltas do destino, acabou vivendo os dois mundos que conhecemos tão superficialmente: o masculino e o feminino. Eu diria que a sua história é uma parábola que conta os percalços vividos pelas pessoas que estão com os pés apoiados nos dois mundos e que, ao mesmo tempo, não estão em nenhum deles. “Tá”, você me pergunta, “mas qual é a história desse Tirésias?” Bem, Tirésias foi um famoso profeta cego de Tebas. Filho do pastor Everes e da ninfa Cariclo, conhecia o passado, o presente e o futuro, além de interpretar o vôo e a linguagem dos pássaros.

Certa vez, quando ia orar sobre o monte Citeron, montanha da região central da Ásia, consagrada antigamente ao deus Dionísio e às musas, encontrou um casal de serpentes venenosas copulando, e ambas se voltaram contra ele. Tirésias matou o macho e na mesma hora se transformou em mulher. Sete anos depois, ao ir orar novamente sobre o mesmo monte, encontrou outro casal de cobras venenosas copulando. Matou a fêmea, e instantaneamente voltou a ser homem. Por seu conhecimento sobre as particularidades dos dois sexos, ele foi chamado para opinar sobre uma discussão entre Zeus e Hera, e dizer quem estava com a razão. Mas deuses são complicados e ele sabia que sua resposta não contentaria nenhum dos dois, e que ele acabaria pagando o preço por isso.

A discussão era sobre quem tinha mais prazer sexual, o homem ou a mulher. Hera dizia que era o homem, Zeus afirmava que era a mulher. O veredito de Tirésias:- “se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma”. Por essa resposta Hera considerou que Tirésias teria sugerido a superioridade do homem, e o cegou como castigo.

Mas Zeus, compadecido da situação de Tirésias, concedeu-lhe o dom da adivinhação, de conhecer o futuro, além de sobreviver a sete gerações humanas e compreender a linguagem dos pássaros.

Bem, como eu disse no início, essa história ilustra a vida das pessoas transgênero que, como Tirésias, flutuam entre os dois mundos, o feminino e o masculino e, não raro, pagam um preço alto por isso. São marginalizadas, colocadas de escanteio no jogo da vida. E, muitas vezes, ficam sem entender exatamente o que se passa. Sim, pois a volatilidade de seus sentidos é cíclica, como cíclica foi a transformação de nosso herói citado acima. Uma torrente de emoções toma todo o seu ser e você simplesmente não tem com quem conversar e partilhar suas experiências. Porque você faz parte dos dois mundos e não faz parte de nenhum…

Tania Miranda
Tania Miranda
Trabalho na Secretaria de Estado de Educação do Estado de São Paulo e minha função é "Agente de Organização Escolar", embora no momento esteja emprestada para o TRE-SP, onde exerço a função de "Auxiliar Cartorário". Adoro escrever, e no momento (maio de 2023) estou publicando meu primeiro livro pela Editora Versiprosa...

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