Uma aliança, um adeus

Já passava da meia noite e Carlos revirava na cama à procura do sono que insistia em fugir dele.
Seus pensamentos voltados para a noite anterior, não deixavam seu corpo relaxar e tudo o que ele mais almejava estava indisponível para ele. Assim ele pensava.
Tentando racionalizar, Carlos levantou-se e serviu-se com uma dose de whisky cowboy. O efeito daquela bebida só fez inflamar ainda mais seus pensamentos sobre aquela mulher que mexeu com ele de uma forma que nem mesmo ele sabia explicar.
Carlos não sabia nada sobre aquela guardiã de seu coração, apenas o seu nome: Ana.
Apesar de não ter nenhuma informação a respeito de Ana, isso não foi um empecilho para ele sentir-se atraído por ela no momento em que foram apresentados durante uma festa de aniversário de seu melhor amigo.
Bastou um único encontro para que uma paixão avassaladora se instalasse no coração de Carlos e ele, com seus quarenta e poucos anos, se questionava como isso poderia estar acontecendo com ele àquela altura do campeonato.
Com um sorriso soslaio, se deu conta que estava parecendo um adolescente apaixonado.
Mesmo sentindo-se envergonhado por estar sentindo tudo aquilo, ele não queria deixar de sentir aquele sentimento por nada e com essa afirmação, serviu-se novamente daquela bebida.
Decidido a saber mais daquela estranha, Carlos entrou em contato com o amigo que havia apresentado Ana para ele e, para a decepção de Carlos, o amigo não tinha o contato de Ana. Ninguém tinha. O amigo de Carlos também tinha conhecido Ana naquela noite e eles também não tinham trocado telefone.
Carlos não acreditava no que ouvia e se pegou buscando Ana nas redes sociais, mas, sua busca era uma agulha num palheiro.
Lamentou-se profundamente por não ter tido coragem de avançar o sinal e saber mais sobre Ana. Lembrou-se do quanto ficou confuso com tudo o que estava sentindo, que não teve reação diante daquela situação.
Do outro lado da cidade, Ana tomava banho e seus pensamentos estavam voltados para o olhar que havia trocado com um homem que tinha conhecido na noite anterior: Carlos.
Apresentada a ele por um recém conhecido numa festa de aniversário, Ana sentiu seu coração explodir quando sentiu o abraço de Carlos no momento em que foram apresentados um ao outro. O corpo de Ana queimou por dentro, como se fosse uma fênix, renascendo dentro dela os sentimentos mais embutidos que havia. O olhar penetrante de Carlos fisgou a alma de Ana ao ponto dela sentir seu corpo em erupção com tamanha invasão.
Durante a festa, Ana e Carlos trocaram olhares de cumplicidade de uma paixão de outras vidas que eles pareciam estar predestinados a viver novamente, mas, aquelas trocas de olhares ficaram naquilo mesmo, pois havia uma barreira gigantesca, uma ladeira de fogo entre os dois: apesar de estar desacompanhado, a aliança no dedo anelar de Carlos reluzia e isso fez com que Ana travasse e voltasse sua atenção para si mesma.
O que Ana não sabia era que aquela aliança tinha sido um presente da mãe de Carlos para ele na sua adolescência quando ele nunca mais tirou de seu dedo.
Sentindo a frustração de perto, Ana não trocou contato com Carlos, nada, apenas o nome dele estava cravado nela. Foi um encontro de almas, como se eles pertencessem um ao outro desde sempre, mas, por respeito à condição dele supostamente ser casado, tentou acalmar seu coração.
Ainda no banho, Ana, sorrindo sozinha, pensou no quanto estava sendo patética, mas o sorriso apaixonado por aquele desconhecido que era casado, insistia em permanecer em seu rosto.
Ela deixou-se envolver por aquele sentimento que havia brotado dentro de si e não lutou para esquecer aquilo que sentiu por Carlos. Tinha valido a pena o reencontro de almas naquela noite e isso para ela bastou.
O que ambos não imaginavam era que tudo o que eles estavam sentindo um pelo outro estava sendo correspondido.
Ana passou os anos seguintes tentando convencer a si mesma de que aquilo não passara de um instante bonito, daqueles que a vida oferece sem intenção de continuidade. Aprendeu a silenciar o próprio coração, a reorganizar os sentimentos, a seguir.
Mas, em algumas noites – sempre nas mais silenciosas – ainda se pegava revivendo aquele olhar.
Lembrava-se exatamente da música que tocava, Vermilion, de Slipknot, mas não lembrava nem mesmo de como a festa terminou.
O que ela não esqueceu foi do calor do abraço; do peso invisível daquele instante; da estranha sensação de pertencimento que não fazia sentido… e, ainda assim, fazia tudo.
Com o tempo, Ana entendeu que certas histórias não foram feitas para acontecer, mas para marcar.
E Carlos…
Carlos nunca soube que, em algum lugar da cidade, existia uma mulher que, por respeito a um amor que ele nunca teve, escolheu esquecê-lo todos os dias.
E talvez seja assim que algumas almas se amam: em silêncio, à distância, e, para sempre, no quase.

Patricia Lopes dos Santos
Patricia Lopes dos Santos
Escritora e Consultora, mãe de Sofia, Duda e Átila arrisco navegar nas palavras e me conectar no mundo delas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

O homem que mudou a vida de Ana

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol