Diante daquelas colunas de concreto, ornamentada por vidros sustentáveis e eficientes energeticamente, Ana sentiu um frio na barriga ao adentrar aquele recinto que parecia aguardá-la ansiosamente para trazer novidades para sua vida.
Cheia de incertezas e ao mesmo tempo insegura com o primeiro emprego, Ana fez o sinal da cruz ao passar pela portaria e ir direto para o setor de recursos humanos, não imaginando que com apenas dezesseis anos de idade sua vida iria mudar completamente a partir daquele instante.
Como havia sido orientada por sua mãe, Ana procurou ser o mais educada possível, e isso não foi difícil para ela. Ao ser recepcionada por Adalgiza, uma senhora baixinha, cabelos longos e finos, sobrancelha arqueada e com o semblante de poucas amizades, Ana identificou imediatamente que teria que ter muito cuidado com as palavras.
Mas, ao ser conduzida para a sala do setor de informática, sua nova estação de trabalho, teve a grata surpresa de ser apresentada a um senhor muito gentil: Antônio do Carmo.
Do Carmo, como era mais conhecido, com seu jeito meigo e paternal, a deixou confortável e ela pôde relaxar por alguns instantes antes de começar o treinamento para fazer parte do quadro de empregados daquele Conselho.
Com sua pouca idade, Ana não tinha noção de nada da vida administrativa, mas isso não foi um impeditivo para ela.
Do Carmo, do outro lado de sua estação de trabalho, procurava manter um diálogo com ela juntamente com os demais presentes na tentativa de deixá-la familiarizada com a rotina administrativa daquele setor.
Sindicalista nato e advogado, ele tinha propriedade nas palavras. Engajado como um bom sindicalista, incentivou Ana a fazer parte do quadro do sindicato, mas no primeiro instante, Ana titubeou, pois achou que era cedo demais para atuar nas causas de um sindicato. Entretanto, ao ouvir atentamente às orientações de Do Carmo, sentiu segurança e assinou aquela adesão, e, mais que isso, aceitou o convite para fazer parte da Diretoria do Sindicato.
Mas, o que ela não imaginava era que ao assinar aquele documento, o mundo se abriria para ela ainda mais graças ao incentivo daquele homem que ela, intimamente, passou a chamá-lo de anjo de guarda.
Do Carmo não tinha noção do quanto ele tinha sido responsável por fazer Ana se sentir segura e bem quista num ambiente como aquele, cheio de pessoas desconhecidas e de poucas amizades. A atuação dele foi fundamental para Ana ensaiar os primeiros passos para ser aceita na sociedade e ela jamais esqueceu disso.
Passados dois anos de experiência naquela Autarquia, Ana foi surpreendida por Do Carmo ao ser avisada de que eles haviam ganhado uma causa na justiça. Ana, alheia a tudo e a todos, como era de se esperar de uma jovem em seu primeiro emprego, não entendeu imediatamente do que se tratava, até que Do Carmo a relembrou do dia em que ela assinou o documento de adesão ao sindicato. Inerte, Ana não sabia ao certo como reagir, pois desconhecia o teor do documento assinado por ela na ocasião.
Do Carmo, com todo cuidado e carinho, esclareceu que ao fazer parte do sindicato Ana estava entre os empregados que teriam direito à ação que estava na Justiça e, para alegria geral, tinha sido favorável a todos eles.
No início Ana ficou meio cética, pois não tinha noção do valor que havia ganhado na Justiça, mas quando Do Carmo mostrou uma planilha com as cifras que ela havia ganhado, não conteve o choro. O que tinha sido apenas uma adesão, transformou-se em mudança completa de vida. Com o dinheiro, Ana pode deixar para trás a pobreza, olhar para o casebre onde morava e agradecer por finalmente poder construir e mobiliar a casa de sua mãe, além de poder comprar seu primeiro carro.
A satisfação de Ana foi imensurável, uma vez que ela jamais imaginou conquistar tudo aquilo que havia conquistado até aquele momento.
Apesar do tempo ter passado e se encarregado de afastar fisicamente Do Carmo de Ana, ela nunca deixou de ter gratidão por ele ter transformado a vida dela, mesmo que indiretamente. O que ela tinha certeza era que, definitivamente, se não fosse pela atuação dele, ela jamais teria assinado aquele documento e o sonho de ter uma vida melhor nunca se concretizaria.
Ana não sabia ao certo como agradecer aquele amigo de jornada, mas o amor e gratidão que ela carregava dentro de seu coração em relação a Do Carmo era conhecido pelo Universo e ela tinha certeza de que Do Carmo sentia tudo isso que ela emanava para ele, mesmo que à distância.


