A recente onda de desinformação em torno da legislação contra a misoginia tem gerado um debate acalorado, mas, infelizmente, muitas vezes distorcido. Como bem pontuado pelo Pastor Henrique Vieira, a narrativa de que uma nova lei visa “proibir homens de falar com mulheres” é uma falácia perigosa, orquestrada para criar medo e confusão. É fundamental desmascarar essa mentira e reafirmar uma verdade inegável: misoginia não é opinião, é crime, e sua proliferação representa uma ameaça direta à convivência social e à própria democracia. A principal tática de quem dissemina a desinformação é a inversão de valores. Ao invés de discutir a proteção das mulheres contra o ódio, a violência e a discriminação, o foco é desviado para uma suposta “censura” ou “criminalização da interação masculina”. Isso é categoricamente falso. A lei não criminaliza um “bom dia”, uma conversa respeitosa ou qualquer forma de relacionamento saudável. Pelo contrário, ela busca coibir a violência psicológica, atos que causam dano emocional, diminuem a autoestima ou controlam a vida da mulher; a humilhação, comportamentos que expõem a mulher ao ridículo ou a constrangem publicamente; a incitação à agressão, discursos que estimulam a violência física ou moral contra mulheres; e a discriminação, tratamento desigual ou preconceituoso baseado no gênero. O objetivo é claro: proteger a dignidade e a integridade das mulheres, garantindo um ambiente onde possam viver e interagir sem medo.
A disseminação de mentiras sobre a misoginia não é aleatória; ela serve a um propósito estratégico. Grupos de extrema direita e influenciadores “red pill” lucram com a manutenção de estruturas machistas e misóginas. Ao criar pânico e desconfiança em relação a avanços legislativos, eles buscam impedir a responsabilização de quem perpetua e se beneficia do machismo e da violência de gênero, polarizar a sociedade criando uma “guerra dos sexos” artificial para minar a solidariedade e o diálogo construtivo, e preservar privilégios, mantendo um sistema onde o discurso de ódio contra mulheres é normalizado e, por vezes, até incentivado em certos círculos. Essa estratégia visa frear qualquer progresso que ameace o status quo de dominação e controle. O debate sobre misoginia não é um “problema de mulheres” ou uma “guerra contra os homens”. É um desafio social que exige a participação ativa de todos, especialmente dos homens. É crucial que os homens reflitam sobre o que consideram “falar com mulheres”. Se a preocupação é não poder mais “falar”, talvez seja o momento de questionar a natureza dessas interações. É preciso que os homens questionem e desnormalizem discursos de ódio em grupos de amigos, na internet e no dia a dia. Ser um aliado significa não apenas não ser misógino, mas ativamente combater a misoginia ao seu redor, educando, confrontando e apoiando as vítimas, reconhecendo que a misoginia causa dor real, trauma e limita a liberdade de metade da população.
A misoginia, em sua essência, é antidemocrática. Ela nega a igualdade de direitos, a liberdade e a dignidade de um grupo de pessoas com base em seu gênero. Quando o ódio e a discriminação contra mulheres são tolerados ou, pior, incentivados, os pilares da justiça social e da equidade são corroídos. Uma sociedade que permite a misoginia prosperar é uma sociedade que falha em proteger seus cidadãos mais vulneráveis e que se afasta dos ideais de uma verdadeira democracia. A mensagem é clara: respeito nunca foi e nunca será crime. A criminalização da misoginia é um passo essencial para construir uma sociedade mais justa, segura e igualitária para todos. É um convite à reflexão, à responsabilidade e à ação. Não podemos permitir que a desinformação e o medo impeçam o avanço de direitos fundamentais. É hora de parar de cair em mentiras, parar de compartilhar desinformação e, juntos, construir um futuro onde a dignidade de cada pessoa seja inegociável.


