Cinema: “O Esquadrão Suicida (2021)” -Como carnaval sangrento e espelho moral do nosso tempo

Lançado em 2021O Esquadrão Suicida não entra em cena pedindo licença. Ele arromba a porta com tinta neon, estilhaços e uma coragem rara: a de ser exagerado sem ser vazio. Sob a direção de James Gunn, o filme abraça a própria premissa absurda, um grupo de criminosos coagidos pelo governo a cumprir uma missão impossível, e a transforma em estilo, ritmo e, contra todas as probabilidades, em uma história com coração batendo no meio do caos.

A engrenagem narrativa é simples e cruel, como costuma ser quando Amanda Waller está no comando. A equipe é enviada à ilha de Corto Maltese, em meio a instabilidade política e paranoia militar, para apagar rastros de um segredo científico que pode virar arma, propaganda ou tragédia em escala continental. A missão, claro, não é pensada para ser justa. É pensada para funcionar. E, se alguém não voltar, isso entra como custo operacional, não como luto.

O encanto estranho do filme está no modo como ele apresenta seus personagens como peças defeituosas e, ainda assim, dignas de atenção. Arlequina surge menos como ornamento e mais como força imprevisível, com espaço para mostrar que por trás do brilho há percepção e instinto de sobrevivência. Sanguinário carrega uma dureza que parece prática, mas tem o peso de quem se acostumou a perder antes mesmo de tentar. Pacificador é a sátira perfeita de uma convicção tão absoluta que vira ameaça, uma ideia de “bem maior” que justifica qualquer coisa e, por isso, apodrece por dentro. E Rei Tubarão, ao misturar candura com destruição, faz o filme lembrar que nem todo monstro tem a mesma natureza do monstro que o mundo fabrica.

Visualmente, O Esquadrão Suicida é um espetáculo que entende composição. Há violência, muita, mas ela é usada como linguagem, quase como uma coreografia grotesca que alterna impacto e humor. Entre uma explosão e outra, o filme abre pequenas janelas de delicadeza, um gesto de afeto, um instante de dúvida, um olhar que denuncia cansaço. Esses respiros não diminuem o caos. Eles o deixam mais verdadeiro. Porque a vida, mesmo no inferno, insiste em ter detalhes bonitos.

No Brasil, o filme costuma estar disponível para streaming na Max, e também aparece com frequência para aluguel ou compra digital em lojas como Prime VideoApple TV e Google Play, dependendo do catálogo do momento. Esse detalhe prático combina com o próprio espírito do longa, sempre circulando entre vitrine e contrabando simbólico, como se fosse um produto de entretenimento e uma acusação embrulhados no mesmo pacote.

A reflexão mais incômoda que o filme oferece não está no monstro gigantesco do enredo, mas na normalidade administrativa da crueldade. O Esquadrão é descartável por design. Há um tipo de violência que não precisa gritar, basta preencher um formulário, assinar uma ordem, apertar um botão. Nesse sentido, o filme tem mais peso do que parece à primeira vista: ele ri alto, mas aponta direto para a lógica que transforma pessoas em recursos e mortes em estratégia.

E, ainda assim, ele não cai na tentação de chamar isso de redenção fácil. Aqui, redenção não é limpeza moral. É escolha miúda, imperfeita, feita tarde, feita com medo, mas feita. Um personagem decide proteger alguém mais frágil. Outro percebe que “paz” sem empatia é só domínio com outro nome. E quando o filme acerta em cheio, ele sugere que talvez o heroísmo não seja uma identidade, e sim um instante, uma fresta, um ato que dura pouco, mas muda tudo ao redor.

No fim, O Esquadrão Suicida funciona como um carnaval sangrento que diverte e acusa ao mesmo tempo. Um filme que faz piada com a morte, mas leva a sério a pergunta por trás dela: quem escolhe o sacrifício, e quem é escolhido para ser sacrificado?

Nota: 8,7/10

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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