Cinema: “Deadpool & Wolverine” e a arte de transformar caos em catarse

Há filmes que chegam como evento, e há filmes que chegam como provocação. Deadpool & Wolverine (lançado em 2024) consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo, com a audácia de quem sabe que está entrando numa sala cheia de porcelanas caríssimas e, ainda assim, faz questão de dançar sapateado. Ele não pede licença ao universo Marvel, ele cutuca, comenta, ri e depois, por puro capricho, entrega ação competente o bastante para justificar o ingresso além da piada.

A premissa é simples na superfície e deliberadamente caótica por baixo: Wade Wilson volta à cena puxado por engrenagens maiores do que sua vida de anti herói falastrão, e o caminho para resolver a encrenca passa por um nome que carrega décadas de mitologia pop nas costas: Logan, o Wolverine. O encontro entre os dois não é tratado como “momento histórico” com reverência. O filme prefere o caminho mais Deadpool possível: transformar o próprio peso do legado em matéria prima para humor, violência estilizada e comentários metalinguísticos sobre franquias, reboots, nostalgia e a sensação de que a cultura pop vive num eterno “volta porque vende”.

Ryan Reynolds segue afinado no papel, com timing cômico que funciona justamente por parecer improvisado, mesmo quando não é. Já Hugh Jackman, de volta às garras, dá ao personagem um tipo de presença que o filme usa como contrapeso dramático. A graça aqui não é só ver dois ícones dividindo a tela. É perceber como a narrativa explora o contraste: Wade fala demais para não sentir, Logan sente demais para falar. E, quando o filme acerta, essa dinâmica produz algo raro em histórias tão autoconscientes: um coração batendo por baixo da máscara.

No comando, Shawn Levy dirige com mão segura para o espetáculo e para a comédia, mantendo o ritmo alto e a montagem esperta. As cenas de ação são desenhadas para serem legíveis mesmo quando exageradas, e a fotografia abraça um visual que combina sujeira, brilho e uma certa cara de “isso deveria ser impossível, mas aqui está”. A trilha e o uso de músicas entram como comentário emocional e também como piada, numa linha tênue entre empolgação e deboche que o filme atravessa com prazer.

Um detalhe importante, e definidor, é o tom adulto. O longa assume a classificação mais pesada que o público do personagem espera, com violência gráfica e humor que não tenta agradar todo mundo. Isso pode soar como muleta, e às vezes é mesmo, porque nem toda ousadia é igualmente afiada. Mas quando funciona, vira linguagem: a brutalidade vira cartoon, a grosseria vira ritmo, e o excesso vira assinatura.

Também é impossível ignorar o contexto. Deadpool & Wolverine é, na prática, uma ponte entre eras, e isso aparece na própria estrutura: o filme brinca com camadas de universos, com burocracias cósmicas e com o fato de que a Marvel virou um assunto sobre si mesma. Há quem ache isso cansativo, e o filme sabe. Em vez de pedir desculpas, ele transforma a fadiga do multiverso em combustível cômico, como se dissesse: “sim, é confuso, mas pelo menos vamos fazer essa confusão render”.

E aí entra a reflexão que mais me pegou: por trás do riso e do sangue, o filme fala sobre o que fazemos com personagens que amamos. Não apenas os personagens em si, mas a ideia de personagem como patrimônio emocional. Wolverine é um símbolo de encerramento, de finitude, de um tipo de heroísmo que carrega consequências no corpo. Deadpool é o símbolo oposto, o herói que escapa de consequências pela piada, pela quebra da quarta parede, pelo truque de olhar para a câmera e transformar dor em stand up. Colocá-los juntos é colocar em choque duas formas de lidar com o tempo: uma que tenta fechar ciclos e outra que tenta eternizar a festa.

Há um subtexto interessante sobre nostalgia como produto. O filme sabe que parte do prazer do público vem de reconhecer, comparar, lembrar e comentar depois. Ele alimenta isso com participações e referências, mas também cutuca a dependência desse mecanismo. Até que ponto estamos assistindo a uma história, e até que ponto estamos consumindo a sensação de pertencer a uma história maior, mesmo que ela esteja se repetindo em novas roupas?

Ainda assim, seria injusto reduzir o longa a uma crítica à própria indústria, porque ele também é, sinceramente, um filme que quer divertir. E diverte. A comédia é alta, a ação é generosa, a química entre os protagonistas é o motor que não falha. O resultado é uma obra que alterna genialidade e exagero, delicadeza inesperada e piadas que talvez não sobrevivam tão bem ao tempo. Mas, no presente, ele cumpre seu pacto com o público: entregar espetáculo com personalidade.

Quanto à disponibilidade, Deadpool & Wolverine está disponível no Disney+ e também costuma aparecer para compra e aluguel em lojas digitais vinculadas a grandes plataformas de vídeo sob demanda, variando conforme a região e o catálogo do momento.

No fim, eu saí com a sensação de que o filme é uma espécie de espelho deformado do nosso tempo: barulhento, referencial, veloz, às vezes saturado, mas capaz de surpreender quando para de tentar ser tudo ao mesmo tempo e escolhe ser, simplesmente, dois personagens numa mesma tela tentando lidar com aquilo que perderam e com aquilo que ainda podem salvar, nem que seja só por mais uma cena.

Nota: 8,6/10

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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