Quando a bactéria é menor que o pânico
O caso Anvisa e Ypê revela uma verdade incômoda sobre o mundo corporativo: muitas empresas acreditam que reputação é uma espécie de perfume institucional. Algo bonito, elegante, usado em campanhas, relatórios e vídeos com gente sorrindo. Até o dia em que a realidade entra pela porta dos fundos e mostra que reputação não é perfume. É blindagem moral.
No primeiro episódio, houve identificação de Pseudomonas aeruginosa em lotes específicos. Na ação mais recente, o ponto central foi outro: falhas em boas práticas de fabricação, controle de qualidade e garantia da qualidade, com possibilidade de contaminação microbiológica. Para o técnico, existe uma diferença enorme entre contaminação confirmada e fragilidade de processo. Para o público, não. Para o público, a frase vira uma só: “tem bactéria no produto”.
E aí começa o espetáculo.
O consumidor não lê resolução, não interpreta linguagem regulatória, não separa risco potencial de risco comprovado. Ele sente medo. E medo, no mercado, vale mais do que explicação técnica.
Nestes anos todos atuando na indústria, pude ver muita reputação de empresa gigante ir para o buraco por uma razão quase banal: não havia ninguém verdadeiramente preparado para gestão reputacional. Havia jurídico. Havia qualidade. Havia regulatório. Havia gente competente em suas caixas. Mas faltava alguém capaz de olhar o incêndio inteiro.
Porque uma crise não destrói apenas quando há erro. Ela destrói quando a empresa demora, fala mal, se esconde, terceiriza a narrativa ou acha que uma nota fria vai resolver uma crise quente.
Plano de contingência não é luxo. É sobrevivência. Rastreabilidade por lote, auditoria rápida, canal com consumidor, resposta ao regulador, análise microbiológica e comitê de crise precisam existir antes da manchete.
Mas o ponto central é outro: reputação não se improvisa.
A indústria formal é essencial. Gera emprego, paga imposto, investe, segue norma e pode ser fiscalizada. Mas, justamente por ser visível, também é mais vulnerável ao tribunal instantâneo da opinião pública.
No fim, qualidade protege o produto. Gestão de risco protege a operação. Gestão reputacional protege aquilo que, depois de perdido, nenhum dinheiro compra de volta com facilidade: confiança.
Willians Fiori
Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003
Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein
Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP
Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger
Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema
Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São PauloPremiado pelo Premio Bstory LongevidadeMembro do conselho Europeu de Silver Economy


