Os comentários

Quase ninguém entra nas redes sociais procurando os comentários. Eles estão lá embaixo, depois do cansaço, depois da rolagem automática, depois do que foi pensado para ser visto. Ainda assim, é ali que muita coisa se revela. Não o que se quer mostrar, mas o que escapa.

O post costuma ser limpo. A foto passa por escolha. O texto recebe ajuste. O meme é testado antes de circular. Nos comentários, não. Ali aparecem frases tortas, erros de digitação, palavras cuspidas com pressa. Não há composição. Há reação. E reação quase nunca é bonita.

Basta acompanhar uma publicação comum, nada polêmica, para perceber o mecanismo. Um vídeo banal, uma notícia corriqueira, uma opinião moderada. Em poucos minutos surgem ataques pessoais, sarcasmo agressivo, desprezo sem contexto. Gente que não conhece o autor, não conhece a história, não conhece sequer o assunto, mas sente necessidade de ferir. Não para convencer. Para marcar presença.

Há algo de profundamente humano nisso, e não no sentido elogioso. A internet não inventou o ressentimento, a crueldade cotidiana, o prazer pequeno da humilhação. Ela apenas retirou o custo. Não há rosto diante do outro. Não há silêncio constrangedor. Não há consequência imediata. O comentário vira descarga.

Quem escreve ali não está debatendo. Está se livrando de algo. De um dia ruim, de uma vida frustrada, de uma sensação permanente de insignificância. A palavra vira substituto do gesto que não pode ser feito. O insulto ocupa o lugar do conflito real que nunca acontece.

É comum ouvir que as redes revelam o pior das pessoas. Talvez revelem o mais honesto. No convívio presencial, a maioria aprende cedo a controlar o que diz. Não por ética elevada, mas por necessidade. O comentário online suspende esse aprendizado. O freio social cai. O que aparece não é um personagem novo. É o mesmo sujeito sem vigilância.

Isso explica por que tantos comentários parecem desproporcionais. A raiva não nasceu ali. Apenas encontrou saída. A internet funciona como válvula, não como origem. O espelho é rachado, mas reflete algo antigo. Violências pequenas, preconceitos herdados, frustrações não elaboradas. Tudo misturado, sem ordem, sem cuidado.

Há tristeza nisso. Não a tristeza romântica, mas a constatação seca de que boa parte da comunicação contemporânea se tornou incapaz de escuta. O outro não aparece como pessoa, mas como alvo. A palavra não constrói. Ela atinge e vai embora.

Talvez o mais perturbador seja perceber que, fora das redes, essas mesmas pessoas seguem vidas comuns. Trabalham, cuidam dos filhos, conversam com vizinhos, repetem gestos de normalidade. O comentário não cria monstros. Apenas revela fissuras que o cotidiano mantém escondidas.

No fim, os comentários dizem menos sobre o tema discutido e mais sobre quem escreve. São confissões involuntárias. Fragmentos de humanidade sem polimento. Não pedem curtida. Não pedem resposta. Apenas existem. E ao lê-los, a pergunta que fica não é sobre a internet, mas sobre o quanto ainda sabemos conviver quando ninguém está olhando.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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