A distância entre quem produz e sustenta a máquina pública e quem apenas suga seus recursos cresce de forma silenciosa, mas constante. Não é um abismo repentino. É uma erosão diária, construída em pequenos privilégios naturalizados, em benefícios justificados por tecnicalidades e em uma rotina institucional que parece funcionar muito bem para poucos e pesar cada vez mais sobre muitos.
Existem dois Brasis convivendo no mesmo território, mas separados por muros invisíveis. Um Brasil acorda cedo, enfrenta transporte precário, paga impostos embutidos em tudo o que consome e segue trabalhando mesmo quando o salário já não acompanha o custo de vida. Outro Brasil circula em gabinetes climatizados, acumula auxílios, verbas indenizatórias, aposentadorias especiais e reajustes que não passam pelo mesmo crivo da escassez.
Os dados ajudam a entender esse descompasso. Segundo levantamentos do próprio Tesouro Nacional e do IBGE, a carga tributária brasileira incide majoritariamente sobre o consumo, penalizando proporcionalmente mais os mais pobres. Enquanto isso, benefícios fiscais, salários acima do teto constitucional e penduricalhos diversos seguem drenando recursos públicos com baixa transparência e quase nenhuma responsabilização política efetiva.
Quem sustenta o Estado raramente decide seus rumos. Quem decide seus rumos raramente sente seus custos. Essa é a lógica que organiza a festa. Se você não faz parte dela, resta o papel de financiador involuntário. Paga-se a conta sem ser convidado para a mesa. Assiste-se ao banquete do lado de fora, enquanto se repete o discurso da austeridade sempre que o assunto é saúde, educação ou políticas sociais.
Nos três poderes, o enredo se repete com variações. No Executivo, cortes recaem sobre serviços básicos. No Legislativo, multiplicam-se verbas de gabinete, fundos eleitorais e acordos de autoproteção. No Judiciário, salários, auxílios e benefícios avançam muito além da realidade da maioria da população, frequentemente blindados por decisões corporativas que dispensam qualquer constrangimento público.
Não se trata de demonizar o serviço público como um todo. A base da máquina é composta justamente por trabalhadores que também pertencem ao Brasil que paga a conta. Professores, enfermeiros, técnicos, servidores de linha de frente. O problema está no topo, onde o Estado deixa de ser instrumento coletivo e passa a operar como estrutura de autopreservação de elites políticas e institucionais.
Chamar isso de festa não é exagero retórico. É descrição simbólica. Um bacanal sustentado por impostos regressivos, endividamento público e cortes seletivos. Um sistema em que o sacrifício é sempre exigido dos mesmos, enquanto o conforto é garantido a quem já tem poder suficiente para não precisar dele.
A indignação não nasce da inveja, mas da assimetria. Não é o incômodo com o ganho alheio, mas com o custo imposto sem escolha. Quando o cidadão comum percebe que trabalha para sustentar privilégios que nunca verá e decisões que nunca influenciará, o pacto social começa a se romper.
Existirem dois Brasis não é apenas uma constatação sociológica. É um problema político e moral. Um país em que a maioria sustenta e poucos usufruem não caminha para estabilidade, mas para desgaste contínuo. E quando a conta deixa de fechar, não é o topo que sente primeiro. É sempre quem ficou do lado de fora da festa, pagando, em silêncio, por um Estado que já não parece lhe pertencer.


