Fé pública em tempos de like

A fé pública no Brasil sempre foi um exercício de resistência. O carimbo azul, a assinatura reconhecida em cartório, o selo em alto-relevo nunca foram garantias absolutas de verdade, apenas rituais de passagem. Desde o Império, quando a burocracia importada de Lisboa tentava ordenar um território maior que a confiança entre seus habitantes, aprendemos a desconfiar do papel. Em 1889, mudou o regime. O hábito ficou.

Há documentos que nascem cansados. Chegam às mãos do cidadão já pedindo desculpas. Certidões que dizem uma coisa hoje e outra amanhã. Processos que dormem décadas em prateleiras de fórmica. Dados oficiais que, no intervalo de um governo para outro, mudam de nome, de método e de sentido. Em 2014, um número explicava o país. Em 2018, o mesmo número precisava de asterisco. Em 2020, de rodapé. Não é mentira explícita. É algo mais sutil e mais brasileiro. Uma verdade provisória.

Talvez por isso a palavra autoridade tenha perdido peso específico. Não por excesso de crítica, mas por fadiga histórica. Quando um ministro escreve numa rede social, o texto não chega escoltado por instituições, nem por bibliotecas, nem por arquivos públicos. Chega sozinho, como qualquer outro. Uma frase num retângulo luminoso, disputando atenção com fotos de gatos, anúncios de apostas e indignações fabricadas.

Na rede social, a autoridade é despojada. Não há toga, não há gabinete, não há o silêncio constrangido da repartição pública. Há um cidadão em pé de igualdade com outros milhões. A plataforma não reconhece hierarquia, apenas engajamento. O algoritmo não sabe quem governa. Sabe apenas quem é clicado.

Em Brasília, no concreto monumental dos anos 1960, as decisões ainda fingem solenidade. Mas no celular, em São Paulo às oito da manhã ou em Belém às três da madrugada, a palavra oficial vira opinião. Pode ser compartilhada, ironizada, corrigida ou esquecida em segundos. Não há última palavra porque não há mais fim de frase. Tudo continua.

Isso não é um defeito da democracia digital. É um espelho. O brasileiro aprendeu cedo que a verdade não mora sozinha em lugar nenhum. Nem no Diário Oficial, nem na coletiva de imprensa, nem no post verificado. A crença absoluta seria ingenuidade. A descrença total, covardia. Entre uma coisa e outra, seguimos, lendo com atenção, desconfiando com método.

Talvez o desconforto não esteja na rede social, mas na expectativa equivocada de que ali alguém ainda fale de cima. Não fala. Ali, todo mundo fala do chão. E o chão brasileiro, marcado por promessas interrompidas e estatísticas móveis, ensinou uma lição simples e dura.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Antes de entender, já disseram

A atenção como produto lucrativo

Ler também é pensar

O risco do pensamento em coro

O caminho das palavras

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol