O povo é o corpo vivo da história brasileira, formado por trabalho, conflito social e adaptação contínua. O Estado existe para proteger esse corpo, reduzindo desigualdades e regulando interesses que, deixados livres, concentram poder e renda. Quando essa função é enfraquecida, não se trata de abstração teórica, mas de decisões tomadas em momentos históricos específicos, com efeitos mensuráveis na vida cotidiana.
A reforma trabalhista aprovada em 2017, durante o governo Michel Temer, foi apresentada como resposta ao desemprego que se agravara após a recessão de 2015 e 2016. A promessa era clara: flexibilizar direitos para estimular contratações.
Passados anos, os dados do IBGE indicam que a informalidade se consolidou como característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro, enquanto o emprego formal não retornou ao patamar anterior. O trabalho intermitente cresceu, mas sem garantir renda previsível. A instabilidade deixou de ser exceção e passou a ser regra para milhões.
Em 2019, já no governo Jair Bolsonaro, foi aprovada a reforma da Previdência. O argumento central foi o desequilíbrio fiscal de longo prazo. Na prática, as mudanças atingiram sobretudo professores da educação básica, trabalhadores rurais e servidores de menor renda, com elevação da idade mínima e regras de transição mais rígidas. Ao mesmo tempo, benefícios concentrados no topo do funcionalismo e distorções históricas permaneceram praticamente intocados. O ajuste teve endereço social definido.
Antes disso, em 2016, a Emenda Constitucional do teto de gastos havia sido aprovada, também sob o discurso da responsabilidade fiscal. Ao congelar por vinte anos os investimentos públicos federais, o Estado passou a operar como se a população não crescesse e como se crises não ocorressem. Entre 2017 e 2019, áreas como saúde e educação já mostravam sinais de estrangulamento. A pandemia de 2020 apenas escancarou o custo acumulado dessa decisão, revelando um SUS central para a sobrevivência coletiva, porém fragilizado por anos de restrição orçamentária.
Essas reformas não podem ser analisadas isoladamente. Elas compõem uma sequência histórica coerente, aplicada em contextos políticos distintos, mas orientada pela mesma lógica. Direitos sociais foram tratados como excesso, enquanto mecanismos de privilégio permaneceram protegidos. O Congresso que aprovou cortes em políticas públicas manteve verbas indenizatórias, benefícios corporativos e renúncias fiscais a setores específicos. A austeridade teve alvo definido.
Os efeitos dessas escolhas são visíveis no espaço social brasileiro atual. Estão na fila prolongada do SUS em grandes centros urbanos e em cidades do interior. Estão na escola pública com infraestrutura desigual entre regiões. Estão no trabalhador de aplicativo que contribui pouco ou nada para a Previdência porque sua renda é instável e sua relação de trabalho é juridicamente frágil. Esses fenômenos não surgiram por acaso; são consequências diretas de decisões legislativas tomadas ao longo da última década.
É nesse cenário que se anuncia a próxima etapa, a Reforma Administrativa. Apresentada como modernização do Estado e combate a privilégios, ela surge após uma sequência de reformas que prometeram eficiência e entregaram maior vulnerabilidade social. A experiência recente autoriza cautela. Quando se fala em enxugamento, a pergunta central não é retórica, é histórica: quem será atingido desta vez.
Se o povo é o corpo da história, cada reforma redefine quem permanece protegido e quem ficará exposto. A administrativa não ocorrerá em terreno neutro. Ela incidirá sobre um Estado já tensionado, com serviços sobrecarregados e trabalhadores públicos na linha de frente de políticas essenciais.
O leitor não é espectador desse processo. Ele depende dessas estruturas, financia suas decisões e sente seus efeitos. A reflexão que se impõe não é se o Estado precisa mudar, mas para quem ele continuará servindo quando a próxima costura for feita.


