A Pergunta Sem Resposta: A Genialidade Poética de “O Que Será” de Chico Buarque

Em 1976, Chico Buarque compôs para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, uma obra-prima da ambiguidade poética que se tornaria um dos maiores enigmas da música popular brasileira. “O Que Será” surge em três versões distintas que marcam diferentes passagens da trama cinematográfica baseada no romance de Jorge Amado, mas todas compartilham a mesma questão central que jamais será respondida: afinal, o que é esse “o que será” que perpassa toda a canção?​

A genialidade da composição reside precisamente na recusa de nomear seu objeto. Chico constrói um retrato verbal daquilo que escapa a qualquer definição, algo que existe simultaneamente “nas alcovas”, “nos botecos”, “nas cabeças”, “nas bocas”, “na natureza”. Essa força misteriosa não reconhece fronteiras sociais nem geográficas, manifestando-se tanto nos “poetas mais delirantes” quanto nas “meretrizes”, tanto nos “profetas embriagados” quanto nos “amantes”. O compositor utiliza um recurso poético sofisticado ao descrever esse fenômeno apenas por aquilo que ele não é ou não possui: “não tem governo nem nunca terá”, “não tem vergonha”, “não tem juízo”, “não tem decência nem nunca terá”, “não tem censura”. Através dessas sucessivas negações, Chico desenha os contornos de algo inerentemente livre, indomável, que resiste a toda forma de controle ou classificação.​

O contexto histórico em que a música foi composta adiciona camadas de significado impossíveis de ignorar. Durante a ditadura militar brasileira, quando a censura exercia controle férreo sobre a produção cultural, Chico Buarque havia se tornado mestre na arte de driblar a repressão através de metáforas e duplos sentidos. Os censores do regime chegaram a interpretar “O Que Será” como uma referência velada a Cuba, enxergando na letra uma força coletiva e subversiva que ameaçava a ordem estabelecida. A própria menção ao que “não tem censura nem nunca terá” soava como desafio direto ao aparato repressivo que vigiava cada palavra cantada no país.​

Mas a maestria de Chico reside justamente em nunca confirmar uma única interpretação. O próprio compositor sempre afirmou que não havia uma intenção singular ao escrever a letra, reforçando o caráter aberto e universal da obra. Essa abertura deliberada permite que “O Que Será” seja muitas coisas ao mesmo tempo: uma celebração do desejo sexual incontrolável, um hino à liberdade política, uma reflexão sobre o amor que não se submete a regras, ou até mesmo uma meditação sobre o divino. A ambiguidade não é defeito, mas essência da composição, transformando a canção num espelho onde cada ouvinte projeta suas próprias inquietações e anseios.​

A construção poética da música revela o refinamento técnico de Chico Buarque, que emprega um regime complexo de rimas internas produzindo coesão semântica e melódica: “alcovas, trovas, tocas, bocas, becos, botecos, certeza, natureza”. Essa engenhosidade formal aproxima sua obra da tradição lírica camoniana, demonstrando que a canção popular pode atingir o mesmo nível de elaboração da grande poesia literária. A repetição obsessiva da pergunta “O que será, que será?” funciona como um mantra hipnótico que não busca resposta, mas sim amplifica a própria interrogação. É uma busca coletiva por algo essencial que todos reconhecem existir, mas ninguém consegue nomear.​

A força da composição está em capturar aquilo que a linguagem racional não alcança: as pulsões, os desejos, os impulsos que movem a existência humana independentemente de leis, morais ou governos. Ao recusar-se a definir seu objeto, Chico Buarque cria uma obra eternamente aberta, um hino ao indefinível que continua ressoando décadas depois porque toca naquilo que há de mais universal e incontrolável em cada um de nós. “O Que Será” não precisa de resposta porque a pergunta, em si mesma, já contém tudo o que importa: o reconhecimento de que existe algo em nós que jamais será domesticado, censurado ou explicado completamente.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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